segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Novos ares


Dizem que amigos não se perde. Não é verdade. Eu sei que não é.

As coisas não estavam bem. Eu podia sentir o ar pesado, massacrando meu corpo quando estava perto dela. Era como se uma força emanasse dela, em direção a mim, me impelindo para longe, bem distante. Eu já notara havia dias, e queria saber o que acontecera.

Não sou do tipo de homem que guarda para si todas as angústias e medos. Sempre fui aberto e consegui expor a todos o que sentia, e dizer a todos tudo o que me chateava. Sempre pareceu mais fácil manter uma relação assim. Com ela era tão fácil ser sincero. Era uma amiga verdadeira, pelo menos para mim. Me ajudava, e compreendia. Mas agora, estava distante.

A distância me incomodava. Sempre penso que se uma pessoa mantem um raio de distância a mim, é porque a culpa é minha. E eu tinha que descobrir o que estava havendo. Não dava mais para esperar.

“Está tudo bem com você? Você anda tão distante. Eu te fiz alguma coisa, magoei você de alguma forma?”

“Está tudo bem”

“Eu não acredito em você. Eu sei que NÃO está tudo bem. Você nunca foi assim. Sempre foi divertida, agora mal me responde as perguntas, mal dirige a palavra a mim.

“Só estou sobrecarregada de trabalho, cansada.”

“Não acho que isso seja motivos para você ficar distante assim. Por que não me conta o que aconteceu? Me diga o que eu fiz de errado, para eu poder consertar meu erro.”

“Você não fez nada. Só preciso de novos ares...”

“Você quer se afastar e diz que não tem nenhum motivo aparente? Me desculpe, mas isso para mim é uma desculpa esfarrapada!”

“Não quero dizer o que aconteceu. Não quero piorar as coisas. Prefiro me afastar.

E eu concordei, como um cavalheiro que respeita a opinião de um amigo, mas não concorda. Concordei porque a resposta dela me doeu mais do que um tapa na cara, me doeu mais do que se ela tivesse jogado em minha cara tudo o que eu tivesse feito e a tivesse magoado. Ouvi-la dizer que preferia novos amigos a me contar a verdade foi dilacerante. Eu não conseguia entender, poxa vida! Tínhamos as mesmas idéias, os mesmos pensamentos, criticávamos as mesmas coisas e desgostávamos de poucas coisas diferentes – como dois amigos normais: distintos um do outro, mas compreensivos, e ainda assim, ela se recusava a me dizer onde eu errei.

Depois daquela conversa, nada foi o mesmo. Ela se afastou - mais. Me ve na rua, e finge que sou um desconhecido. É mais simpáticas com estranhos do que comigo, que já compartilhei muitas angústias. Respeitei a decisão dela, mas nunca a aceitei. Ainda me dói ve-la passando por perto e fingindo não conhecer, demonstrando insignificância.

Tudo mudou. Nada mais foi o mesmo. Agora há um muro entre nós, e embora eu já tenha tentado escalar e subir e gritar por cima dele, nenhum som ultrapassa essa área gélida e morta que se construiu entre nós dois.
Amigos a gente perde sim. Sempre. Porque as pessoas não tem coragem de dizer em nossa cara do que ela não gostou. Preferem se calar para não magoar nossos sentimentos, e magoam mais ainda não dizendo absolutamente nada.

Eu perdi, sim, uma grande amiga. E não sei o porquê.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O ladrão de Chocolates


Era um almoço solitário. Eu havia ido ao restaurante sozinha, e não há nada mais triste do que almoçar sozinha – a gente pensa em tudo e nada ao mesmo tempo, gasta tempo demais pensando em baboseiras enquanto enfia garfadas de comida guela abaixo, até limpar todo o prato que antes estava cheio de cores.

Comi. Bebi meu suco. Paguei minha conta, e como sobremesa, me dei um bombom “Alpino”, daqueles bem pequenos, mas gordinhos e macios, com o sabor único que o chocolate pode ter.

Estava prestes a deixar o restaurante, com meu bombom em mãos, quando avisto um grupo de amigos almoçando em um outro canto do local. Fui convidada a me juntar a eles, e me juntei. Alguns já haviam acabado de comer, outros estavam nos momentos finais...

Conversa vai, conversa vem, o papo deu uma trégua e eu me lembrei do bombom que ainda segurava. Feliz, descasquei aquela embalagem dourada com cuidado, como se de dentro dela fosse sair um bombom de ouro. Retirei o papel, e com todo cuidado de quem deseja degustar com calma e paz um bom chocolate, dei uma sutil mordidinha no bombom – bem pequena mesmo, porque não há motivos para devorar algo tão pequeno em tão poucos segundos se há como saborear aos poucos e atrasar o final inevitável.

Por educação (que às vezes eu juro que não sei porque tenho), ofereci um pedaço à turma. A turma era bem maior do que restava do meu bombom, mesmo se todos mordiscassem o chocolate como eu havia feito – mas mamãe me ensinou a sempre compartilhar as coisas, e eu – criança inocente – acreditei que assim deveria fazer.

Como toda pessoa sensata, cada um que eu olhava, recusava gentilmente um pedaço do meu bombom, sorrindo – talvez pela graça da situação mesmo. Quem oferece um pedaço de alpino? Eis que quando ofereço meu pequenino bombom ao último da mesa, ele aceita um pedaço. Quando ele aceitou, eu, gentilmente, cedi meu bombom a ele. Ele abriu a boca com gosto, como se lá coubesse a fábrica inteira da “Nestlé” naquele momento, e atacou vorazmente o meu chocolate. Dilacerou mais da metade do bombom, fez cara de “huuuum, que delícia – Veja, estou saboreando cada micrograma do seu chocolate”, e continuou segurando o bombom. Eu continuei olhando, abalada demais para dizer alguma coisa, esperando que ele gentilmente me retornasse o que havia restado do meu finado bombonzinho, mas ele continuou lá, enforcando meu chocolate, enquando suas mãos começavam a ficar marrons pelo bombom derretendo. De repente, em um ataque mais do que rápido, ele enfiou todo o pouco resto do meu alpino na boca, e saboreou... Lambeu os dedos, um a um, como uma dama faria para provocar um homem louco de desejo.

Minha fúria, nesse momento, transpareceu. Consegui conter minha língua, mas meus olhos fuzilantes metralharam aquele assassino de bombons. Olhei indignada a cada um dos que estava na mesa, e todos estavam tão pasmos quanto eu, tentando entender a audácia do indivíduo que ainda mastigava os últimos restos do meu delicioso bombom. Meus olhos encontraram os olhos de cada um que presenciara aquela cena, e conversamos por olhar durante aqueles segundos de silêncio.

“COMO ELE TEVE CORAGEM DE COMER O MEU ALPINO???”

Meus amigos ficaram com dó de mim. Acho que eles haviam percebido o quanto eu estava me deliciando com aquele momento que deveria ter sido só meu – o de comer o chocolate como a melhor sobremesa do mundo. Quiseram me comprar chocolates para compensar minha perda.

Mas nada no mundo substitui algo que a gente perde sem ao menos esperar...

Eu perdi o meu alpino.

domingo, 23 de agosto de 2009

Que paciência, que nada!


Alguém já percebeu que toda vez que estamos estressados, prestes a matar um que atravesse aquela linha invisível que construímos quando estamos com raiva, pensamos em deus e pedimos paciência?

Pois bem. Eu descobri que pedir paciência não é a melhor solução. Aliás, descobri que quanto menos a gente pede, melhor, porque a gente nunca gosta do que recebe em troca.

Se pedimos paciência, ele manda um daqueles problemas (ou pessoas mesmo) bem encardidos pra testar você ao máximo – óbvio! Deus nunca dá nada de mão beijada, então ele não iria iluminar você, colocar aquela musiquinha “oohhhh” de fundo e falar “Pronto, meu filho, eu te concedo o dom da paciência”. E BUM! Você se torna paciente. Então, o que ele faz? Ele manda um problemão que, se você conseguir solucionar, vai ser porque teve paciência. Lindo, não é? Você já estava soltando fogo pela boca de nervoso, e chega mais um problema pra atazanar. Mas fazer o quê? Foi você que pediu...

É como pedir força. A gente pede força e espera por paciência. Só que como queremos ser fortes, o problema que ele manda é aquele que você tem vontade de socar como se fosse um daqueles almofadões de boxe. Ué, você pediu força? Ele tá te testando.

Por isso, por uma única vez na minha vida, eu gostaria que minha boca ficasse quieta e que minha mente incansável parasse de pensar todas as vezes que eu estivesse prestes a perder a paciência. Queria que fosse como uma chave de energia – Você vai esquentando, esquentando... E quando tudo está quente demais e você acha que vai explodir, PUF, ela desliga, e você fica paralisado, no limbo, até tudo esfriar e você conseguir ligar a chave de novo.

Ahh! Se fosse assim, eu seria a pessoa mais feliz do mundo, porque todas as vezes que estivesse prestes a pedir “Dai-me paciência, senhor!”, a chave iria cair, e ele nunca iria me escutar.

É, mas como isso é simplesmente um sonho e nunca vai acontecer, por enquanto eu vou tentando comprar chaves que aguentam mais energia, que aguentam mais calor... Vou trocando a fiação de mim mesma e torcendo para que eu nunca chegue naquele estágio em que você está querendo abusar demais da situação e não há fio ou disjuntor que aguente.

Are baba!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Gripe etílica, neurose suína



Alguém já parou para pensar como esse novo vírus, que nem é tudo aquilo que todos esperavam que fosse, foi capaz de incorporar as normas básicas de higiene na população?

Essa onde de globalização da doença está transformando a população em um bando de loucos por esterilização: A mídia manipula as informações que divulga, e o povo simplesmente se apavora.

Essa onda de limpeza, pra mim, começou quando aquele infeliz difamador da classe dos biomédicos – o tal do “Dr. Bactéria” – começou a divulgar no fantástico que nem tudo é tão “limpinho” quanto parece. Começou a dizer que não pode lavar alface e guardá-la lavada, que tábua de carne e “mexedores” de madeira são um mundo de fungos e bactérias... E o povo começou a se desesperar, com medo da ameaça invisível e microscópica dos “germes”.

O problema é que ninguém nunca parou para pensar em como isso SEMPRE esteve presente em nosso mundo e raramente nos afetou. Tudo bem, uma infecçãozinha gástrica ou uma virose de vez em quando são comuns, afinal de contas, é pra isso que existe nosso sistema imunológico, mas fazer desses seres microscópicos os vilões da história que exterminarão o mundo é sensacionalismo demais.

Todo mundo esquece de lembrar que graças a bactérias e fungos – sim, ou você achava que “flora intestinal” era uma área verde de preservação máxima em seu intestino? – são essenciais para conseguirmos alguns nutrientes e sobrevivermos. Todos se esquecem de que há bactérias em nossas mucosas, em nossa pele, em nossa boca, na maçaneta da porta, no corrimão da escada, no ovo que saiu do ...*tuu*... da galinha, no plástico que está na boca do danone que vc bebe na própria embalagem, no guardanapo de papel, que está no restaurante, e que um monte de gente já roçou a mão... Eles estão em TODOS OS LUGARES.

Agora, com essa gripe nova por aí, parece que a mídia prega que a solução para todos os problemas é esterilizar. Taca álcool, bota fogo, autoclava, lava com “Cândida”. O mundo é sujo, é nojento, todo mundo espirra, tem vapor contaminado em todos os lugares. Use máscara, não toque, não rele!

Chega agora ao mundo a onda da higiene. Não vou criticar a higiene, óbvio – são procedimentos básicos que todo mundo deveria seguir sempre, e agora só está aplicando no dia-a-dia porque tem medo de morrer por um vírus que nem mata todo mundo.

Cadê o medo do HIV? Cadê o medo da meningite? Do sarampo? Da varicela? Da hepatite? Do HPV? Da sífilis? Da tuberculose? Da dengue? Da malária? Da doença de Chagas?

Alguém já parou de viver essa paranóia de H1N1 e analisou que morre mais gente das doenças que já conhecemos e sabemos como evitar (e não evitamos, veja bem!)? Alguém já parou pra pensar que usar camisinha preserva mais sua vida do que lavar a mãozinha com um álcool que SÓ PROTEGE se tiver teor de 70% (sim, povo, não adianta comprar álcool em gel cheiroso ou aqueles da marca “Veja”, porque o teor não chega nem a 50%), e olha lá? Alguém já viu as estatísticas pelo lado inverso? – Morreram 200 de gripe suína, mas 160 mil sobreviveram?

Chega dessa neurose de mundo estéril, pessoas. Parem de criar essa ilusão de que os “germes” são nossos inimigos. Por que todo mundo se esquece de que a mídia é sensacionalista? Procurem se informar de verdade. Ser saudável não é viver numa bolha, é simplesmente saber selecionar em que acreditar e como prevenir. Não é preciso ser radical.

sábado, 15 de agosto de 2009

PALMITO!


Há quem não acredite em telepatia. Eu mesma era bem assim, descrente dessa sandice toda de leitura mental. Acreditava em sintonia, mas nunca nessa história de que um fulano pode transmitir o pensamento pro ciclano.

Pois bem, essa era eu. Descrente. E como todo descrente de qualquer coisa, sempre acontece algo extremamente bizarro que te faz enxergar aquilo que você não queria ver. Comigo, a culpa foi do palmito.

Era um começo de manhã, acredito que por volta de 6h. Eu dormia esparramada em minha cama, sonhando com algo que realmente me fazia feliz e me deixava satisfeita no sonho, eis que... No meio do MEU sonho feliz, aparece minha mãe. – Sério, mãe sempre aparece pra acordar a gente na hora errada, mas dessa vez ela sequer teve o prazer de abrir minha porta: simplesmente entrou no meu sonho, fez com que o meu “background” evaporasse como fumaça no céu, e começou:

“Helô, eu quero fazer uma torta amanhã e não sei do que faço...”

Eu olhei pra ela, pensei e respondi “Faz uma torta de palmito, mãe”.

Ela não ouviu. Tudo bem, meu sonho já tinha ido pro saco mesmo... Lá foi ela perguntar de novo... “Do que eu faço a torta?” – E lá fui eu responder de novo “Palmito, mãe”.




O problema era que ela não me ouvia. Ela estava do meu lado, no MEU sonho, e ficava me estorvando, perguntando incansavelmente do que fazia a bendita da torta. 

Conforme eu fui sempre respondendo a mesma coisa, eu fui me estressando, até que quando ela perguntou acho que pela sétima vez, eu fiquei tão revoltada, mas tão possessa de revoltada que puxei todas as forças dos meus pulmões pra berrar e pra ela ouvir.

“PALMITOOOOOOOOOOOO” – Respondi. Respondi E acordei respondendo, literalmente berrando com todas as forças dos meus pulmões, às 6h da manhã de um domingo. Ainda gritava quando me dei conta do que estava berrando aos sete céus (ou aos seis andares de apartamentos, no caso), e me calei, pasma comigo mesma de que minha mãe tinha me feito pagar um mico estúpido que provavelmente acordou até o porteiro. 

Percebi o que tinha feito, percebi o quanto era ridículo ter berrado PALMITO a 1000dB às seis horas da manhã num domingo, provavelmente fiquei roxa de vergonha quando me toquei disso, mas virei de costas pra porta e fingi que dormia feliz, pra tentar enganar qualquer um que aparecesse na minha porta perguntando “Você enlouqueceu?!”.

Sei que dormi até umas 10h. Juro que enrolei na cama aquele dia com vergonha de levantar. Mas levantei. Levantei e fui falar bom dia para minha mãe. Ela me viu, olhou pra mim, e riu.

É, pelo menos a minha mãe eu tinha acordado...

Eis que ela pergunta: “Você sabe o que você gritou dormindo hoje de manhã?”

É, não tinha escapatória... “Sim. Palmito...” – e me apressei a explicar logo o porquê do berro, antes que ela tirasse sarro de mim. Não adiantou. Eu terminei de contar, ela começou a rir mais.

Sabe como é – ninguém fica de bom humor logo que levanta. Ela tava querendo me provocar. Eu perguntei o que acontecia, e ela disse:

“Sabe o que é mais engraçado? Fazia uns cinco minutos que eu tinha acordado e estava deitada na cama, pensando no que fazer de janta hoje. Daí pensei numa torta, mas não conseguia pensar numa torta do quê. E fiquei lá, pensando do que poderia ser o recheio, e de repente ouço você gritando “PALMITOOOOO” “. 

Eu “O.o”. 

Não sabia o que pensar. Não sabia se ficava brava com minha mãe, pela força do pensamento dela ter esfumaçado meu sonho e me feito esguelar como uma ensadecida, ou se ficava assustada, pelo mesmo motivo. Refleti... 

“Telepatia”.

Sei que foi a prova pra mim de que telepatia existe, porque minha mãe não havia demonstrado vontade, nem idéia de fazer a tal da torta anteriormente.

E sei que naquele domingo, na janta daquele domingo, eu comi torta de palmito!