sábado, 14 de agosto de 2010

Sexta-feira 13

O dia amanhecera escuro. As nuvens no céu formavam uma cortina densa que impedia o sol de brilhar. O vento, balançando as árvores, tornava o ar denso e gelado. Só uma louca como eu para sair de casa em um dia como esse.

Não havia ninguém nas ruas. Tudo estava deserto, como naqueles pesadelos que a gente tem nas primeiras horas da manhã, quando a madrugada desiste de reinar. Aqueles pesadelos em que você está perdido em algum lugar, no escuro, e não há mais ninguém além de você e aquela outra pessoa de quem você está fugindo. Medo.

Os pássaros não cantavam, nem os cachorros latiam. Estava sozinha no mundo. Comecei a sentir calafrios – medo, aflorando à pele. Não havia mais ninguém, mas eu sentia vontade de correr, como se todos os olhos ali me vigiassem, como se logo algo puxasse minhas pernas, e ninguém fosse me socorrer enquanto eu gritasse como louca.

Acelerei os passos, com os braços cruzados no peito – instinto, proteção. Ainda estava longe, e o dia estava escuro como a noite, piorando.

Um uivo.

Um grunhido.

Gritos. Meus gritos, escapando da garganta, em meio ao pânico e medo que me cercavam. Meus passos gritavam pela rua, anunciando minha corrida desvairada em direção a lugar nenhum. Eu perdera o rumo quando algo uivou, caíra quando algo grunhiu... Agora desembestara em frente, sem saber aonde ir.

Uma névoa descera do ar. Tudo estava branco, gelado e turvo. Não se via a luz, nem o chão. É inútil fugir quando não se sabe para onde está indo, mas eu corria desesperadamente.

Uma sombra me parou. À minha frente, um contorno escuro de um homem (ou seria mulher?) me aguardava, à espera de meu encontro. Meus pés fincaram no chão e o ar fugiu dos pulmões. Podia sentir meu corpo estremecendo de medo, minhas pupilas dilatadas e alertas. Minha pele sentia qualquer leve movimento do ar. Eu chamaria a sensação de agonia pura.

A sombra começou a crescer. Vinha em minha direção. Eu não sabia para onde ir, não sabia de onde viera. Gritei, gritei com toda a força que pude, joguei todo o ar do meu pulmão para fora, fiz tremer todos os músculos do corpo com a força da voz, mas eu estava só, e ele estava perto. Perto demais, que agora eu sabia que era um homem, alto e forte. Seus olhos surgiram na escuridão: Eram verdes, mas suas pálpebras estavam vermelhas, sedentas. A face não mostrava medo ou agonia como a minha. Os olhos semicerrados fixavam-se em mim. Nos lábios, nenhum sorriso, somente uma linha tênue.

Era tarde demais. Ele me agarrou pelos braços, olhou fundo em meus olhos. Meu desespero não me deixou resistir. Ele me virou de costas pra ele, puxando meus cabelos para trás e expondo meu pescoço. Enquanto eu soluçava de medo, ele traçava com o faro uma linha da minha nuca até a clavícula.

Tirou um punhal do bolso.

E já era tarde demais.

Um comentário:

  1. Deu medo. rs

    Muito bom o texto. Prepara mais um pro Halloween. =P

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