quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O que as propagandas de sabonetes bactericidas não ensinam a você.




Como biomédica, uma das coisas que sempre me incomodou na TV foi ver a propaganda daquele sabonete “bactericida” mais famoso, que todo mundo conhece, mostrando um pirralhinho se divertindo na lama, chegando em casa empipocado de bactérias e, depois do banho esterilizante com o tal sabonete, ficar 99% limpinho.

Para aqueles que não aprenderam muito sobre a biologia geral humana, essa é a imagem imaculada da limpeza que todos deveriam seguir: Viver em um mundo onde toda e qualquer bactéria é um organismo vivo potencialmente mortal. E eu não culpo essas pessoas por acharem isso, porque as propagandas veiculadas na mídia realmente fazem você se sentir extremamente contaminante se não se lavar com sabonetes bactericidas.

O que poucos sabem, na verdade, é que nós humanos vivemos em constante harmonia com milhares de bactérias em diversos lugares do nosso organismo. Essas bactérias estão lá para nos auxiliar ou não, mas raramente as bactérias da nossa flora normal são patogênicas a nós mesmos. Nós temos milhares de bactérias em nossa pele, em nossa mucosa oral, genital ou mesmo intestinal, e sempre convivemos com isso e nunca morremos por compartilharmos nosso corpo com esses procariontezinhos. Em alguns casos, é essencial que tenhamos algumas bactérias específicas para “conseguirmos” produzir ou metabolizar nutrientes.

O que poucos também sabem é que um sabonete não precisa ser necessariamente bactericida para acabar com a graça de uma bactéria. Sabonetes e detergentes são armas físicas muito simples contra esses micro-organismos: Basta uma esfregadinha bem dada de sabonete na mão, que boa parte das bactérias ali irá morrer pelo atrito e pela destruição das membranas bacterianas. Então, pra você ficar limpinho, não precisa tomar banho com sabonete bactericida.

Outra coisa: Sabonetes bactericidas que você compra no mercado não contem antibióticos. Como todos sabem, a venda de antibióticos é proibida sem a prescrição médica, e tomar banho de azitromicina daria o mundo dos humanos, de graça, às bactérias, pois todas as linhagens restantes das bichinhas seriam resistentes à droga.

Mais uma coisa que nem todos sabem e deveriam saber: Quando mais inócuo, quando mais estéril, quanto mais limpo o ambiente em que você estiver, menor a sua resistência adquirida ao longo da vida, maiores os riscos de você desenvolver alergias, mais susceptível a doenças fica o seu sistema imunológico.

O que a TV não ensina: Que não é preciso viver em uma bolha para ter higiene ou ser limpinho. Seus avós, bisavós e daí pra trás com certeza não viviam nesse mundo pragmático de esterilidade e sobreviveram muito bem ao mundo “sujo” de hoje em dia.

Logo, você não precisa de sabonete que elimina sua flora normal da pele, nem de antibióticos a cada inflamaçãozinha de garganta. Você só precisa ter bom senso e saber entender que o ser humano, sozinho, não é bosta nenhuma.