sábado, 28 de abril de 2012

Uma breve explicação: Experimentação Animal


**ATENÇÃO! Há algumas imagens fortes nessa postagem.**


Há tempos venho tentando encontrar um texto que explicasse isso para evitar a fadiga, e não o encontrei. Senti-me na obrigação de fazer um, tentando explicar sucintamente meu ponto de vista como cientista, que optou por não trabalhar com animais, mas entende e respeita a ciência que o faz.



Esses movimentos contra experimentação animal me deixam indignada pela ignorância que o apoia. E aqui chamo de ignorância a pura falta de conhecimento sobre como e porque de se fazer experimento com animais.

Uma breve introdução à farmacologia
Não é obrigação de quem nunca cursou um curso de farmacologia saber a complexidade da ação de um produto no organismo. Poucos, aliás, sequer sabem que o organismo absorve o que cai na sua pele e metaboliza isso, então tento relevar muita baboseira que vejo, antes de escrever um texto. Logo, já relevei demais.

Todos os produtos que ingerimos são metabolizados: Tudo cai na corrente sanguínea, uma hora ou outra (seja injetado, ingerido, besuntado na pele), e segue para o fígado, onde é metabolizado como uma forma do organismo inativar aquela molécula e excretar, livrando seu corpo o mais rápido possível da ação daquele produto estranho. No entanto, existem moléculas que precisam ser metabolizadas uma, duas, várias vezes até serem inativadas e eliminadas. Essa repetição de inativações não ocorre repetidamente: O fígado tenta inativar a molécula, ela continua ativa, cai na corrente sanguínea de novo, percorre o organismo, volta para o fígado... E assim permanece até que haja sucesso na depuração do produto.

Qualquer remédio que você consumir, vai ser assim. O que você aplicar à sua pele vai ser assim. O anabolizante, hormônio ou medicamento que você injetar vai ser assim.

E tudo seria lindo se a metabolização fosse perfeita e fosse diminuindo o efeito das drogas. Mas não é. E tem vezes que o fígado tenta inativar uma molécula, mas acaba gerando um metabólito secundário extremamente tóxico para o organismo, que pode até levar à morte.

Logo, antes que qualquer produto seja liberado para consumo humano, é preciso fazer ZILHÕES de testes para prever que não vá ser tóxico e que não vá matar alguém. E eu digo PREVER porque, embora sejamos (humanos e animais de laboratório) todos mamíferos, nem todos os organismos metabolizam produtos da mesma forma (as variações enzimáticas entre as espécies são grandes), e o teste em animais de diferentes espécies é a maneira que a farmacologia usa para tentar minimizar os efeitos graves quando os produtos chegam a testes clínicos (com humanos).

***

Nós, pesquisadores, trabalhamos com animais não porque gostamos ou porque menosprezamos os bichinhos. Simplesmente não há como gerar organismos similares a humanos, que façam todas as metabolizações de droga que os órgãos humanos fariam (órgãos porque, embora o fígado seja o grande mestre, muitos outros participam dessa alteração metabólica), para trocar o sistema de experimentação de produtos. Se esse organismo fosse gerado, aposto que muito mais órgãos cairiam de pau em cima questionando a ética e viabilidade de uma “máquina humana”, do que os comitês de ética caem em cima quando você sugere um número absurdo de animais para fazer um teste.

Biotério climatizado. 
Há sim comitês de éticas que avaliam o uso de animais em pesquisa. Mas nenhum tapado compõe a banca, tentando inviabilizar um projeto com a desculpa de especismo. Esses comitês avaliam não somente se é necessário o uso de animais, como também estudam como é a proposta de tratamento desses animais. Os animais experimentais ficam em ambientes controlados, tem alimentação controlada e adequada, e hoje tem-se evitado ao máximo sacrifícios que possam levar o animal a um sofrimento contínuo.

Circulam pela internet fotos de animais em estado depreciativo, com títulos de que esse puro sofrimento é experimentação animal, dando uma ideia de que só porque os animais chegaram àquele estado, eles foram mal cuidados e desprezados pelos pesquisadores.
Pesquisas com animais de médio e grande porte são
extremamente controladas e só são permitidas em casos
excepcionais. Essa foto é puro SENSACIONALISMO.

Não caiam nessas bobagens. Embora a experimentação possa sim machucar os animais, os testes são feitos justamente para ver se o produto em teste não prejudicaria o ser humano. As indústrias de cosméticos vivem em uma batalha fervorosa para lançar produtos novos no mercado, que fazem milagres na pele e cabelos; indústrias farmacêuticas testam drogas porque se uma substância tem um potencial alvo como fármaco, só por sua molécula é impossível (talvez possamos dizer ainda) saber como será sua metabolização se não inseri-la em organismos vivos.

Sem os animais, hoje não teríamos antibióticos, anti-inflamatórios, antipiréticos, ansiolíticos, hormônios, quimioterápicos. Não teríamos cremes, unções, géis, pastas. Xampus, sabonetes, hidratantes... Teríamos venda indiscriminada de ervas tóxicas que são ditas curativas, e a venda de produtos contaminantes e contaminados... Enfim! Hoje não teríamos um mercado capaz de prover uma boa qualidade de vida se não fossem os animais de laboratório, que morreram para que você não morresse.

Esteróides também são experimentados em
animais
. Parece tão cruel pra você?

Há extremistas hoje chamando essa diferenciação animal de “especismo”. Sou cuidadosa e prefiro não confundir as coisas antes de levantar uma bandeira. A experimentação humana foi feita, sim, há décadas, com pobres, negros e marginalizados. É antiética, amoral e depreciativa (leiam o livro “A Vida Imortal de Henrietta Lacks” para entender um pouco, ou assistam ao filme “Quase Deuses”). É proibido que haja testes iniciais em humanos, justamente pela falta de conhecimento dos riscos que um produto desconhecido pode trazer à vida de alguém. Não há como tentar progresso na saúde humana se não usarmos outros meios para tentar curar o câncer, infecções, diabetes... Não é possível tentar evitar infartos, AVC’s ou doenças autoimunes se você não testar drogas em bichinhos, antes de ministrá-las a um ser humano.

Experimentação humana, retratada tanto na obra literária "A vida Imortal de Henrietta Lacks", 
quanto no filme "Quase Deuses". Quem sofriam eram os negros e pobres. É mais digno que matar um ratinho? 

Portanto, antes de criticar, pense na sua avozinha que sofre de hipertensão, no seu tio que teve câncer, na sua pílula que não te deixa engravidar, no seu remédio para labirintite, queda de cabelo, ansiedade. Lembre-se da pomada que você usa, do “gelol” que você passa, do desodorante que te mantem cheirosinho o dia todo. E lembre-se que sem os animaizinhos de laboratório, você não teria nada disso ao seu alcance. Lembre-se do amianto que você não respira mais, do mercúrio que não está mais contaminando a sua água, do césio que tira seu raio-X. E lembre-se que graças aos bichinhos, você não é um tumorzinho ambulante.

Antes de criticar a experimentação animal, viva-a. Entenda como é a rotina de laboratório de quem precisa dos animais para pesquisar. Estude farmacologia, entenda como tudo que entra no organismo age, como se acumula na sua gordura, ou como é eliminado. ENTENDA. Antes de criticar, estude. E se for criticar, sugira, com propriedade, uma nova forma de experimentação, mas não tente barrar uma pesquisa que pode te curar de um câncer daqui 10 anos. Mas não recrimine quem usa animais para estudo, se você leu esse texto todo com sangue nos olhos, discordando já desde a primeira palavra, e se bloqueou a entender qualquer explicação que eu tentei dar só porque, durante o texto, inseri meu ponto de vista. Não cheguemos, mais uma vez, à fadiga de uma discussão.

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Hahaha, aqui mesmo! Cansei de tanta baboseira non-sense rolando pelo facebook. Ficou bem pessoal, mostrando meu ponto de vista, mas era a intenção rs

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    2. http://radios.ebc.com.br/amazonia-brasileira/edicao/2013-10/biologo-conta-situacao-de-animais-no-instituto-royal

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    3. Pontos de vista diferentes sempre sào bem vindos. Não quero aqui impor a minha opinião favorável ao uso de animais para experimentação, mas só explicar o porquê de eu ser favorável.

      Há pesquisas boas e pesquisas ruins, tanto com animais, quanto sem animais - no Brasil e no mundo. Mas as boas tem dado grandes resultados e ajudado muito a medicina a liberar remédios para tratamento de diversas doenças - principalmente as negligenciadas.

      Desde que a discussão não vire uma disputa de extremismos, links e comentários são sempre bem vindos =)

      Obrigada, Eileen.

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  2. Arrazô, gata! Se o povo não separar o que é crueldade do que é Ciência, estaremos no limbo!

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  3. Um texto e uma argumentação tão precisos e ajustados à realidade quanto um sítio ativo e um substrato. Parabéns :)

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