domingo, 28 de outubro de 2012

Somos tão corruptos quanto eles


Estamos há muito criticando a corrupção, a falta de honestidade política, a falta de caráter político e o despeito com que estes indivíduos mentem descaradamente, sem ter sequer coragem e honestidade de admitir algo que fizeram.

No entanto, políticos nada mais são do que nós, pobres e classe média, com poder e dinheiro a total dispor, a qualquer hora. Na verdade, eles são uma pequena parcela representativa do que é ter dinheiro e poder no Brasil. Ou talvez, no mundo.

Nós, hoje, somos tão corruptos, tão desonestos e tão mentirosos e covardes como são os políticos que elegemos. E se não somos corruptos, somos corruptíveis. E somos hipócritas, a ponto de cobrar que os grandões lá em cima sejam o que não conseguimos ser aqui embaixo.

Podemos analisar quão iguais a eles nós somos através de pequenas ações nossas no dia a dia. Esses pequenos erros e deslizes que cometemos são comparáveis aos que nossos políticos cometem lá em cima, se analisarmos as devidas proporções.

  1. Nós baixamos programas, arquivos, mídias piratas na internet, independentemente de o conteúdo ser para uso próprio ou não. Explicamos isso como uma forma de protesto pelo preço abusivo dos produtos, mas que forma de protesto é essa que fazemos, que tenta se justificar pelo uso indevido dos direitos de alguma empresa? - E cobramos de nossos políticos que não utilizem dinheiro público para campanhas e uso pessoais.

  1. Nós não respeitamos as leis de trânsito. Passamos em sinal vermelho, não respeitamos a velocidade máxima permitida em uma rodovia ou em uma pista, não respeitamos sinais de pedestre ou paramos para eles atravessarem em faixa exclusiva. Mas cobramos de nossos políticos que respeitem a lei, que respeitem nós, cidadãos, e que sigam fielmente a conduta correta, que nós mesmos não seguimos.

  1. Nós subornamos ou somos corruptíveis. Há quem pague guardas para tentar fugir de multas, há quem pague por aparelhos que roubem sinais de comunicação... Mas criticamos ao extremo os políticos que tentam comprar o silêncio de quem sabe demais ou que utilizem meios ilegais para conseguir algo, como transportar alguns milhões de dólares pelo mundo a fora em uma cueca.

  1. Não sabemos separar o pessoal do profissional. Se algo acontece no ambiente de trabalho, com assuntos totalmente relacionados ao trabalho, nos ofendemos e tomamos a afronta como pessoal, pegamos birra de uma pessoa e muitas vezes agimos de formas mesquinhas tentando provar superioridade ou prejudicar a pessoa de alguma forma. Os políticos queimam seus arquivos indesejados, de um jeito ou de outro, quer esse “arquivo” tenha agido propositalmente ou não.


E a lista poderia ser imensamente longa se fôssemos encontrar a semelhança entre nós e aqueles que elegemos. Mas para cada ação corrupta deles que vem à tona, nós temos uma de menor intensidade proporcionalmente igual.

Nós não temos moral para julgar um político que rouba dinheiro público, se estamos sempre tentando tirar vantagem. Menos moral ainda para criticar a política tem aquele que sonega imposto, alegando que o governo já come demais às suas custas. Protestar com a mesma moeda só prova que somos iguais ou piores do que aqueles que criticamos.

Não temos moral para incriminar um político que pagou por um serviço ilegal, porque muitos de nós já aceitaram algum benefício de chantagem para fazer ou não algo, seja esse benefício financeiro, ou não. E se não o fizemos, talvez foi porque o valor oferecido foi baixo. Muitos tem um preço, basta saber o quanto é para pagar.

Não temos moral alguma para pedir que um político seja honesto e cumpra a lei, porque sequer sabemos respeitar uma lei de trânsito, que está totalmente a nosso controle. Quem nunca esteve dirigindo em paz em uma pista, no limite de velocidade permitido, e foi praticamente atropelado por alguém que estava correndo a uma velocidade MUITO acima da máxima? E como vamos cobrar alguma idoneidade política quanto às leis, se ficamos pressionando os outros para que façam algo errado, só para que possamos fazê-lo também?

O caos que se instalou na política brasileira é meramente um reflexo do que é a grande maioria da população hoje: oportunista, hipócrita, corruptível e sem caráter. Basta dar poder a qualquer um que faça essas pequenas ações, que aparentemente não prejudicam ninguém e só beneficiam nós mesmos, e ver que qualquer um que tiver pleno dinheiro e poder nas mãos vai sambar e dançar em cima dos inferiores.

É utópico achar que conseguiremos melhorar o país se não começarmos a partir de nós. Um pouquinho aqui, outro pouco ali e esse pouco passado adiante de geração a geração pode sim mudar um país inteiro. Mas precisamos começar a praticar mais a honestidade em nosso dia a dia para podermos atirar a primeira pedra, com gosto, e acertar em cheio um criminoso que está no poder, sem ter medo de alguém lhe apontar o dedo e dizer que seu passado é tão sujo quanto o do apedrejado. Mas, no momento, somos todos sujos e corruptos iguais àqueles que criticamos. Nossas formas de protestos estão erradas, nossa forma de aceitar o mundo está errada, e nossa maneira de reivindicar é primitiva. Estamos estagnados no mesmo ponto há 30 anos, e sequer temos coragem de tentar sair.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Saudades de mim


Despertou cedo, em pleno final de semana, e correu se arrumar para o que esperara a semana inteira.

Tomou o café da manhã com gosto, arrumou o quarto e se vestiu, pronta para se entregar àquela paixão que já possuía há quase 10 anos.

Feliz, saiu de casa cantando, aquecendo mentalmente o corpo, se preparando para a hora em que a música invadisse o ambiente, agitasse as células, os músculos de seu corpo, e espantassem quaisquer pensamentos daquela mente que nunca parava de pensar.

Por uma hora, o mundo sumiu. Resumiu-se à música, ao corpo, ao sentimento, ao movimento... Por uma hora, todo o cansaço e esforço da semana valera a pena. Por aquela hora, tudo valia a pena.

E ela dançou. Dançou e se entregou às notas, aprendeu e errou, mas viveu intensamente aquele momento, como se soubesse que um dia teria que deixá-lo passar mais uma vez.

Hoje, quando chegam os finais de semana e não tem mais esse motivo para esquecer o mundo, ela chora. Porque a saudades dói até quando temos que deixar longe aquilo que fazia nos sentirmos nós mesmos.