sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Opressão


Havia bandeiras para todos os lados.

Uns gritavam “Azul!!”, outros berravam “Vermelho!!”, mas quem achava que o roxo era a cor certa, era oprimido pelas mentes fechadas daqueles extremos, achando que o mundo vivia em dualidade única.

Os azuis defendiam a revista Cara, os vermelhos, a Coroa. Mas quem gostava de roxo, não podia dizer que lia Cara e Coroa e que tinha sua própria ideia dos fatos, porque os azuis julgavam ser inadmissível a revista Coroa ser digna de informação, e os vermelhos achavam a revista Cara completamente utópica.

Os azuis lutavam pela igualdade a qualquer custo, fosse a humana, fosse entre espécies. Os vermelhos já não eram vorazes em suas opiniões, eram mais calculistas e menos emotivos. Os que gostavam de roxo não podiam decidir sem que alguém o enquadrasse no grupo azul ou no grupo vermelho, porque, afinal, a alienação mental dos extremos acreditava somente em duas possibilidades. Somente no bem e o no mal, e cada cor se auto-enquadrava no bem, e automaticamente dizia que a outra era o mal. E não podia haver alguém que julgasse bom haver bem e mal.

Os azuis não aceitavam ser chamados de azuis. Os vermelhos abominavam serem denominados vermelhos. Qualquer apologia a suas cores era motivo de calúnia, processo, preconceito e difamação. Os roxos não podiam falar de azul sem que os azuis se ofendessem. Os vermelhos não podiam sequer ouvir alguém falar de sua cor que não fossem eles mesmos.

E o mundo estava assim: Tão egoísta e intolerante, tão alienado e superficial, que ninguém mais conseguia ver o verde, o amarelo, o branco ou o preto como partes de um todo.  Para os azuis, o mundo só seria bom se fosse azul. Para os vermelhos, se fosse vermelho.

Para os roxos, o mundo podia ser colorido, podia unificar tudo e todos. Mas os olhos de quem quer enxergar uma cor só nunca conseguem ver todos os espectros do arco-íris. Se não são os olhos que estão fechados ou machucados, mas sim a mente e sua pequenez voluntária, o mundo pode ter todas as cores - pode ser todo branco – mas os olhos de quem ve sempre enxergarão a cor que a ideologia utópica e encrustada naquela mente pequena desejar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Jardineiro


Ela nunca soubera muito bem lidar com os outros. Cansada de tanto errar e ultrapassar barreiras, talvez por proteção, criou uma barreia pessoal com medo de quebrar as regras pessoais dos outros, que só descobrimos quando já é tarde.

Fora assim a vida toda: Sempre que tentara se encaixar em um grupo, iludia-se. No começo, era quieta e cautelosa, com medo de ferir alguém com algo que dissesse espontaneamente, sem a intenção de machucar. Depois de se sentir mais à vontade, plantava a semente da amizade no solo fértil, e a deixava crescer livremente, sem aprisiona-la demais. E sempre, quando esta semente estava germinando e brotando, quando a amizade parecia fluir e finalmente acreditava que ali criaria raízes para a vida inteira, alguém ia lá e a arrancava pela raiz, excluindo-a daquele círculo de amizade que um dia julgara ser o seu lar.

Eram tantas as experiências assim, que já não sentia mais raiva ou ódio quando se via sozinha novamente. O sentimento que brotava em si, agora, era somente de tristeza e decepção. Sentia-se tão humilhada por ter acreditado cegamente naquela nova amizade, por ter sido deixada de lado, retirada do solo onde outras flores cresciam, que não conseguia mais se rebelar com a situação. Apenas chorava, em silêncio, tentando entender porque há jardineiros tão cruéis nesse mundo. A tristeza não cabia em palavras ou em lágrimas... A tristeza de ser trocada, abandonada, esquecida, desprezada por aquelas irmãs do jardim.

Quebrou suas próprias regras quando aceitou semear-se em outros lares, porque de tanto que sofrera, decidira um dia que nunca mais permitira suas raízes ultrapassarem a barreira de seu próprio jardim. E as quebrou porque, mais uma vez, achou que o sol brilharia da mesma forma sobre novos lares. Mas, mais uma vez, iludiu-se e errou.

Após refletir, respirou fundo e ergueu a cabeça. Era preciso arar a terra para continuar a viver em seu pequeno céu.