segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Discussão - Experimentação

"Ué, mas você toma remédio para dor de cabeça, para dor de garganta, toma antibióticos, passa pomada, gelol, cataflan. Seu pai vive porque toma remédio para controlar a pressão. Sua mãe, porque controla o colesterol à base de medicamentos, e você é contra a experimentação animal?"

"Sim. Há alternativas. Sou contra qualquer tipo de experimentação"

"Há alternativas para simular um sistema cardiovascular? Por favor, me diga qual"

"Ah... Não sei. Não estudei pra isso, mas sei que existe."

"Você entende a complexidade fisiológica que é a homeostase do sistema cardiovascular? Entende tudo, desde os hormônios que atuam, até todos os distintos tipos celulares que compõem todo o sistema circulatório e cardíaco que poderiam interferir em um tratamento?"

"O quê? Eu já disse que não estudei para isso."

"Então como você afirma que as supostas alternativas são eficazes?"

"Ah... Eu não afirmo, mas devem ser, né? O homem já deve ter descoberto como simular o corpo humano, só não usam esse simulador porque matar animal é mais barato"

"O que você entende sobre variabilidade genética?"

"Sobre o quê?"

"Variabilidade genética. Aquela "coisa" de existirem variações no genoma que fazem com que um organismo não se comporte necessariamente igual ao outro"

"Ah... Nada. Não estudei pra isso. Sou contra a experimentação e acho desnecessário." 

"E você não se medica? Acha que tudo o que você já consumiu em farmácias e todas as vacinas que você tomou foram descobertos como? E produzidos?" 

"O homem já não precisa mais disso tudo. Olha onde já chegamos, tudo o que sabemos. Não precisa mais de animais."

"Então quer dizer que só porque você não tem doença de Chagas, leishmaniose, esquistossomose, HIV, ou qualquer doença autoimune, você não precisa de novos medicamentos, mas quem precisa e vive na esperança de um dia se livrar do lupus, da aids pode morrer sofrendo, porque você não tem essas doenças e não quer mais experimentação animal, é isso?" 

"Não foi isso que eu quis dizer. Os animais não precisam sofrer para o homem viver."

"Foi isso sim. Inconscientemente, pra você, não importa se outra pessoa tem alguma doença que você não tem, porque é isso que a ciência quer curar e você é contra"

"Eu não sou contra a cura. Eu sou contra o uso de animais para experimentação!" 

"E como você acha que descobrem a cura de doenças? Jogando o remédio no bicho, in vitro, e vendo se ele morre?"

"Mais ou menos isso"

"Sério. Vá estudar fisiologia e farmacologia para entender mais"

"Só porque eu sou contra uma causa, eu não preciso estudar para defender meus ideais"

"Sinto muito, amigo, mas você precisa sim. Se você quer defender uma causa com dignidade, você precisa argumentar com propriedade e saber o que defende. E você não sabe nada de farmacologia e fisiologia. Você acha que quando toma paracetamol, o remédio sai passeando pela sua corrente sanguínea e sabe onde tem que parar para eliminar a dor, e só age ali e nada mais. Sua concepção de biologia é infantil"

"Eu não sei como ele age, mas sei que o homem saberia descobrir sem usar animais. Por que não usar humanos, então? Por que esse especismo? Por que só animais precisam morrer?"

"Ok, então que você acha de começar a produzir filhos a partir de agora e doá-los todos a labroatórios de pesquisa para fazermos os testes? E que tal se voluntariar a ser infectado com HIV para testarmos um novo coquetel de antiviral que promete eliminar o vírus, mas pode ser que te mate intoxicado?" 

"Mas você pode fazer o teste em quem tem HIV, não precisa me infectar pra isso."

"Quer dizer que quem tem HIV merece correr o risco de morrer para o teste do remédio, só porque ele já tem o vírus, é isso?" 

"Não. Mas ele vai morrer de qualquer jeito se não testar, então..." 

"Então a vida de um humano vale menos que a de um animal para você. E se esse humano fosse seu pai? Ou se fosse você?"

"Eu com certeza me candidataria ao teste"

"Claro, mas só se estivesse infectado"

"Sim, para que eu me infectaria com uma doença que não tem cura e poderia me matar?"

"Para salvar outras vidas! É isso que os cientistas fazem todos os dias quando experimentam em animais! A ciência não pode depender de encontrar voluntários a morrerem por uma causa para salvarem outros na mesma condição. Não são todos que pensam como você, que defendem os mesmos ideais que você. Uma mãe chora e prefere ver um cãozinho sacrificado para salvar o filho que tem câncer, a vê-lo morrer caquético em uma cama de hospital."

"Não importa. Eu sou contra."

"É... Não importa. Realmente você não se importa."

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Ninguém nunca ouviu falar, mas agora todo mundo é fã!

Há tempos tenho filosofado sobre o que escrever pra tirar esse blog do limbo, e uma frebre que tomou conta dos hipsterzinhos de plantão começou a me incomodar nos últimos tempos: A onda do "Ninguém nunca ouviu falar de fulano, mas agora todo mundo é fã!".

Pois bem. 

Eu não sei o porquê, mas nos últimos anos - talvez na última década - o ser humano ficou com uma febre doentia de "exclusividades"... Ou um gosta de uma banda dos confúndios da Alemanha, porque ninguém nunca ouviu falar dessa banda, mas ela é muito boa, e "eu ouço uma música diferente, que ninguém ouve", ou é alguém que acompanha um trabalho de longos anos de carreira de algum artista que, hoje, não é tão mais conhecido, e "nossa, o cara é muito foda, como vocês sobreviveram todo esse tempo sem ouvir a música dele?". Ou o fulano é maníaco por séries, cava os fundos do IMDB buscando histórias novas, e se revolta quando o seriado se populariza: "até ontem ninguém sabia o que era Breaking Bad. Hoje todo mundo é fã!".

Eu nunca vi problemas em descobrir alguma boa arte tardiamente. Na verdade, antes descobrir tarde do que morrer sem saber que aquilo existia, não é?

Não importa se você nunca ouviu uma música de Bruce Springsteen na vida (malemá sabe cantar Born in the USA), mas viu o show do cara no Rock in Rio, gostou, baixou a discografia do homem e está curtindo como se as músicas tivessem sido gravadas ontem.

Legal!!

Você descobriu um novo gosto. E um BOM gosto (o que é difícil hoje em dia, convenhamos). Aproveite mesmo! Tuíte que você gosta do cara, compartilhe músicas, escreva textos. Não é porque o cara tem carreira há 50 anos e você só o descobriu agora, que você tem menos mérito de ser fã do que alguém que o ouve há 20 anos.

E que problema tem em você ter começado a assistir uma série que vai acabar/acabou e comentar freneticamente sobre ela com todos que você vê ou em tudo o que você faz? Só porque você não ficou angustiando entre as pausas de uma temporada e outra, você não tem o direito de dizer que gosta daquilo, não pode comentar, não pode querer se sentir fã da série, do personagem e dos jargões antes que tudo acabe?

Eu sinceramente não entendo essa recriminação de alguns com aqueles que não acompanham algum artista, algum seriado, alguma coleção de livros ou uma série de filmes desde a primeira publicação.

Só porque você acompanha, não significa que você tem mais méritos pra fazer comentários, que sua opinião desvalida a opinião do recém-fã, ou que o seu fanatismo é melhor porque você sabe tudo porque acumulou conhecimento ao longo de anos, e não de dias, semanas ou meses.

Em vez de criticar, fique feliz! Fique feliz que alguém descobriu uma arte boa para adicionar à sua vida. Fique feliz que mais alguém tem um gosto parecido com o seu (seja bom ou não).

Não seja egoísta, não queira ser exclusivo. Não se ache no direito de ser único em um mundo com 7 bilhões de habitantes.

Você não é. E nunca vai ser.

Deal with it.