quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Moça do Café



Edward Hopper - Automat

O sol já estava baixo a oeste, e a silhueta de uma jovem senhora ainda ocupava o mesmo lugar em uma cafeteria. Estava ali havia horas, e permanecia com a mesma expressão no rosto. As lágrimas tinham deixado um caminho brilhoso em sua pele e seus olhos estavam tão inchados e tristonhos que haviam deformado parcialmente a feição da mulher. Não bebia e nem comia nada. Apenas esquecera o olhar fixo na mesa e se perdera dentro de pensamentos.

Muitos já haviam comentado sobre o que se passara com aquela infeliz. Eu olhava constantemente para aquela moça e me perguntava se realmente seria verdade o que diziam sobre ela. Ela, aparentemente, era quieta, fechada, mas doce. Conseguia misturar a tristeza e a alegria com um só gesto. Talvez essa dúvida e curiosidade tenham me deixado ali, sentado do outro lado da cafeteria, observando os poucos movimentos por ela feitos.

Com o passar do dia, descobri que seu nome era Marta. Aliás, bastou-me as duas horas críticas daquela manhã de inverno pra descobrir boa parte da vida da moça. Fui casado por trinta e dois anos e acredito que não conhecia todas as histórias da minha falecida esposa. E, em duas horas eu conheci a vida de Marta.

Enquanto tomava meu habitual café, entraram no local duas senhoras da cidade, que, ao se depararem com a presença de Marta, começaram a balbuciar palavras agressivas e, em certo tom, caluniadoras. Eu as conhecia, e, como já havia notado a presença insossa do alvo da crítica, resolvi me situar e tentar saber mais sobre o assunto:

- Bom dia, Joana. Bom dia, Clara. Tagarelando já cedo? – e ri, suavemente, para não aceitarem como crítica meu começo de conversa.
- Bom dia, Jorge. – Disseram ao mesmo tempo, retribuindo meu sorriso.
- Pois bem, senhoras. Notei que comentavam sobre aquela moça, logo ali no canto...
- Sim, Jorge. – disse Clara – Aquela é a Marta, morava nas terras do Senhor Luarte. Morava... – e desdenhou a moça com um riso no canto da boca...
- Como você não ouviu falar dela, Jorge? A cidade toda comenta o que ela fez àqueles pobres meninos.
- Meninos? Que meninos, Joana?
- Jorge! Em que mundo você vive? Como você não se lembra do desaparecimento de dois filhos de uma empregada do Senhor Luarte? – Clara parecia estar indignada comigo.

Eu parei por um tempo e fiz uma busca mental, e, encontrei vagas lembranças do tal caso. Nunca me importei muito com a vida das pessoas da minha cidade. Depois que minha mulher faleceu, eu não sentia mais ânimo para comentar a vida com meus conhecidos, e fui me distanciando pouco a pouco do que acontecia no povoado. No entanto, o caso dos dois meninos foi algo marcante. Saiu nos jornais e foi anunciado nas rádios. Até que a mãe foi coagida a desistir da busca. Um mês depois soube que ela se matou, e soube também pelos jornais.

Olhei novamente para Marta, ela mantinha a mesma expressão cabisbaixa e tristonha, e não consegui enxergar motivos que a levassem a cometer tal crime.

- Mas, senhoras, o que me dizem? Como alguém como aquela moça ali pode causar mal a alguém?
- Há umas duas semanas, Jorge, a Marta ali pediu que um rapaz capinasse a beira do rio que passa ao fundo da casa dela. Ele descobriu umas plantas enraizadas profundamente e decidiu tirar dali. Porém, quando ele começou a cavar, encontrou uns ossos, que pareciam de uma mão pequena. Ele continuou cavando, apavorado, e achou dois corpinhos juntos, um ao lado do outro, enterrados e já em estado de podridão.
- Isso mesmo, Clara. E, sabe Jorge, a Marta não suportava ver crianças brincando em seu quintal. Ela cuidava com todo carinho das plantas que ali tinha, e, como não saia quase nunca de casa, as flores eram suas únicas companheiras...
- Ela até chegou a jogar pedras nos meninos uma vez, quando os viu arrancarem uma das rosas que acabara de florir... Pelo menos foi o que ouvi da mãe das crianças antes dela...
- Ela tinha uma implicância com aqueles meninos... E você sabe que só identificaram os garotos por causa dos cabelos negros, Joana?
- Eu ouvi dizer! Imagine como a mãe dos garotos reagiria se visse os corpos dos pequenos ali, enterrados sem dó, jogados numa vala?
- Mas senhoras, vocês acham que isso são provas de que a moça possa realmente ter matado as crianças? Parece-me uma teoria absurda!
- Jorge, são evidências. Ela sempre foi esquisita e reclusa mesmo. Sempre permaneceu trancada dentro daquela casa. Sempre odiou que mexessem em suas plantas... Sabe, Clara, eu chego a pensar que possa haver mais “coisas” enterradas naquele quintal.

Nesse momento, percebi que para mim, continuar ali, ouvindo baboseiras e fofocas não acrescentaria nada no que eu gostaria de saber sobre a moça. Despedi-me das senhoras, e antes de voltar à minha mesa, dei mais uma olhada para Marta. Dessa vez, vi uma lágrima caindo de seus olhos. O sol refletiu o brilho.

Mais tarde, por volta das onze horas da manhã, entrou na cafeteria um senhor que eu conhecia da escola. Sentamos e conversamos durantes muitos minutos, até ele notar a presença da suposta criminosa. Quando a viu, parou um instante analisando a mulher. Eu fiz o mesmo e vi que agora, ela não mais chorava, mas olhava constantemente para as mãos, como se procurasse provas ou indícios de algo. Analisava minuciosamente.

Fiquei perturbado com a cena, mas fui chamado à conversa com meu amigo, quando ele se aproximou e disse baixo perto de mim:

- Sabe, Jorge... Tenho pena daquela moça ali (e apontou por cima do ombro para Marta). Mas tenho mais pena mesmo é da mulher do senhor Avarantes...
Fiquei confuso. Não entendi a deixa, nem o porquê da mudança drástica de assunto, e continuei olhando para o homem, como alguém que pede explicações pelo olhar. Ele continuou:
- Ouvi dizer que o Luarte se endividou com o Avarantes não sei por conta de quê, e foi obrigado a fazer um serviço meio sujo em troca. Também ouvi dizer que o Avarantes andou conquistando as moças que trabalhavam para o Luarte, e também já ouvi boatos de que há uma possibilidade daqueles meninos serem filhos do “arrasa corações”. Junta tudo, querido Jorge...
- E o que a mulher do Avarantes tem a ver com o caso, homem?

- Ela descobriu que o marido não lhe era fiel. Descobriu, mas continuou casada com ele, como cumprimento de contrato. Mas, desde então, não tem mais dado as caras em bailes que costumava freqüentar.
- Pois eu continuo tendo mais pena mesmo daquela senhora ali. Não vejo culpa nos olhos dela...
- Ela era bem calada e fechada, Jorge. Mas se eu tivesse que apontar o culpado, diria que Avarantes obrigou Luarte a fazer o serviço.
- Você insinua que Luarte matou as crianças?
- Tem lógica, não? Enfim, caro amigo. Tenho de ir. A patroa espera pro almoço.

Almocei na cafeteria, como de costume também, e continuamos ali, eu e Marta, um em cada canto do estabelecimento. Eu olhando para ela, ela olhando para o nada. Já não olhava mais para as mãos.
Ela não comeu. Ninguém lhe ofereceu almoço. Por piedade à moça, levantei-me e cheguei perto de onde estava. Ela não me olhou, mas não hesitei em perguntar:

- Moça, a senhora não vai comer? Notei que não comeu nada desde que está aqui...
- Minhas mãos, senhor...
Ela voltou a encarar as mãos, e não teve medo de que eu as visse. Tinha terra embaixo das unhas e arranhões de espinhos por toda a pele.
- Minhas mãos... Eu não... Não foi a intenç....

E ela não concluiu a palavra. “Não foi a intenção?”. Permaneci ali, ao lado da mesa em que estava, por mais alguns segundos. Ela agia estranhamente e não me disse mais nada. Voltei à minha mesa e lá continuei, a tarde toda.

Pouco antes do pôr do sol, entrou um homem bem-vestido e de olhar neutro no local. Eu o reconheci. Era o tal Avarantes.

Ele ignorou minha presença, mas notou Marta aos fundos. Ela, instantaneamente, o viu e seus olhos pararam, em choque, quando encontraram os dele. Avarantes a desdenhou e voltou sua atenção ao atendente. Marta ficou irrequieta e começou a tremer.

Avarantes sentou em uma mesa não muito próxima dela, nem de mim, e ali ficou, tomando seu café, lendo seu jornal e, volta e meia, abaixando-o para fitar a senhora. Ele a intimidava. Depois de alguns minutos, deixou o local.

Marta paralisou seu olhar novamente na mesa. O sol se punha a oeste.

De repente, em um ato rápido, ela se levantou, pegou sua mala, e se dirigiu à porta. Eu a acompanhei com o olhar. Ela hesitou em sair, mas deixou, mesmo assim, o local. E começou a andar pelas calçadas.

Eu a acompanhei até onde os vidros do “café” me deixaram ver. Por onde ela passava, tudo se tornava mudo, calmo. Todos fugiam de seu caminho. Pude notar que mexia os lábios enquanto andava e olhava para a mão vazia...