terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Porque sim não é resposta!

Acho que toda criança que cresceu na mesma época que eu assistia ao “Castelo Rá-Tim-Bum”, já que o “Rá-Tim-Bum” só reprisava os episódios.

Devo confessar que apesar da abertura fantástica do “Castelo...”, nada nunca me surpreendeu mais do que aquela engenhoca arcaica que iniciava o antigo “Rá-Tim-Bum”. Eu adorava a fuça daquele rato fazendo “tóin-tóin” quando ele saía da toca – aliás, eu gostava de tudo: Daquela bexiga que segurava uma bola de boliche, do trenzinho passeando, do macaco comendo a banana... Mas eu nasci numa época em que esse seriado estava com os dias contados e seria substituído por uma história com bruxas, “raios e trovões! – CABRUM”.

Tá. Eu adorava aquela cobra cor-de-rosa metida e exibida que era a Celeste, adorava os irmãos gêmeos “Tíbio e Perônio” e cheguei até a comprar um livro deles que tinha um esqueleto humano com o nome de todos os ossos do corpo. Adorava o Bongô, não suportava a Caipora, e adorava a roupa do Etevaldo. Ansiava pelas partes extras do ratinho azul, e principalmente do “Viu como se faz?”, e sentia raiva do doutor Abobrinha!

Mas dentre tudo o que o Castelo Rá-Tim-Bum me ensinou em minha infância, uma das coisas que mais me lembro era do coitado do Zequinha curioso, que queria saber tudo e ninguém explicava nada. Por quê? Por quê? Por quê? – Porque sim, Zequinha! Tudo bem, o pirralho irritava, mas coitado, por que não respondiam direito?

Como ninguém se habilitava a responder, sempre aparecia aquele professor Tibúrcio reestruturado, vestido bizarramente como um ciclista em dia de parada gay, dizendo: “Porque sim não é resposta!” E pegava aquele controle remoto gigantesco tijolão para começar a caçar as explicações.

Enfim... Uma das coisas que eu aprendi com Castelo Rá-Tim-Bum foi questionar até obter uma explicação plausível. Lembro que um dia eu brincava com minhas primas na casa da minha avó, e era hora do lanchinho da tarde. Eu queria comer só o peito de peru, não queria comer o pão – eu adorava comer só os frios naquela época, mas minha avó não deixou, dizendo que faria mal. Eu, inocente, mas curiosa, perguntei o porquê, e ela me respondeu “porque sim”. Pronto. Era o prato cheio. A resposta sempre esteve na ponta da língua para toda criança que passou a infância vendo aquele castelo, todos os dias, às 18h. Eu prontamente respondi à minha avó: “Porque sim não é resposta!”

Resposta errada. Não tinha ninguém com um controle remoto quando eu falei essa resposta, não tinha nenhuma imagem de fundo tentando achar lógica pra minha avó não me deixar comer o peito de peru... Tinha somente minha avó, com uma cara assustadora, olhando pra mim, os olhos fumegando e a boca torcida. Quase dava para ver as fumacinhas saindo da narina, mas ela não fez nada comigo. Minto. Ficou fazendo cena e não dirigindo a palavra a mim até minha mãe chegar. Quando mamis chegou, ela simplesmente contou tudo para minha mãe, como se eu fosse a criança mais mal-educada do mundo. Óbvio, minha mãe queria se esconder de vergonha, e quando veio me perguntar por que eu havia respondido aquilo, eu prontamente acusei o programa da TV cultura: “Ué, no Castelo Rá-Tim-Bum é assim. Sim e não nunca são respostas, e eu queria saber o porquê”.

Minha mãe ficou quieta, refletindo, eu acho. Até certo ponto, eu tinha razão. Havia aprendido com um programa de TV cujo objetivo era ensinar crianças. Não me criticou, nem me puniu, só me disse para nunca mais dizer “porque sim/não não é resposta”.

Descobri então que nem tudo o que eu via naquele seriado era para ser feito. Fiquei decepcionada.

Mas hoje, quando vejo algum episódio de Castelo Rá-Tim-Bum, sinto saudades daquela época, e não me arrependo de ter dado aquela resposta à minha avó. Qualquer que fosse a mentira que ela inventasse para me convencer de que eu não poderia comer peito de peru sem pão, seria melhor do que simplesmente me negar uma explicação.

Vai saber se esse senso crítico que brotou em mim não me fez querer ser cientista? Talvez uma Tíbia, quem sabe.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Meu Natal

Há alguns anos eu percebi que a magia do natal pra mim já não mais a mesma. Gosto de passar o dia com minha família, trocar presentes, comer a ceia, mas sempre que estou em algum lugar e começam a me dar “Feliz Natal, tudo de bom”, eu me pergunto se a dialética é verdadeira ou é aquela velha decoreba de “o que dizer em momentos como este”.

Adoro dar presentes, e adoro receber, mas sempre gosto dos momentos que realmente são sinceros. Quando se torna um natal mecânico, eu desanimo e perde a graça.

Penso que, no Natal, eu gostaria de rever todos os meus amigos que estão longe, que não vejo há anos, que já se foram... Para mim, é uma época triste, porque penso em tudo o que aconteceu durante aquele ano e eu deixei para trás. Tudo o que aconteceu de bom e de ruim passa pela minha mente, e eu tento não chorar, porque relembro como foi difícil sobreviver a mais um natal...

Mas deixando a melancolia de lado, neste post queria dedicar um abraço especial para todos os amigos que não vejo há anos. Sei que muitos não irão ler, porque sequer sabem que tenho blog, mas mesmo assim, eu os homenageio, porque fizeram parte da minha vida:

Aos amigos distantes, que pouco posso ver, mas moram em meu coração: Marina, Cris, Ygo, André, Paty, Gu, Kami, Glauber, Quinze, Zero – um ótimo natal e fim de ano a vocês.
Aos amigos que fiz durante meus anos de escola: Débora, Ana Clélia, Fayna, Carla, Gustavo, Thales, Luca – Feliz Natal.
Aos parentes que já se foram, eram os mais verdadeiros, e sinto imensa falta todos os dias: Meu vozinho Zizo, minha vozinha Cida e meu Tio Zé (e até a Miuxinha) – descansem em paz e comemorem os feriados como puderem, aí em cima. Feliz Natal.
Aos que amo e estão sempre presentes em minha vida: Mãe, Pai, irmão, Bruno, Vozinho João, Vó Marlene, Supers Aninha e Thata, meninas de Botucatu – Feliz Natal.
A todos aqueles que já passaram por minha vida e deixaram saudades: Feliz natal!

Meu feliz natal é um desejo de felicidade, de saudades e de realizações a todos vocês.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Prisão a dois


Não entendo até hoje como as pessoas acham que namoro é prisão. Na verdade, me espanta ver casais se tratando como propriedades um do outro e pedindo permissão pra viver, como se seu namorado(a) fosse seu dono de alguma forma.

Nunca pensei assim em minha vida. Para mim, namoro sempre foi uma amizade plena e profunda, em que a confiança seria digna de não exigir itinerários, ou muito menos de pedir permissão para ter amigos ou respirar algum ar que não contenha o do companheiro misturado.

Talvez seja esse o motivo pelo qual demorei tanto para encontrar uma pessoa que me completasse e pensasse como eu. Acho extremamente egoísta esse desejo de se achar no direito de controlar a vida do namorado. Acho ridículo ficar bravo porque o namorado se divertiu sem sua companhia.

Peraí, eu não dou justificativas de onde vou e com quem vou nem pros meus pais, não peço permissão pra sair nem pros meus pais, e tenho que fazer o oposto com uma pessoa que me ama, e que eu também amo? Não, pra mim as coisas não funcionam assim.

Quando se namora, você aprende os limites da outra pessoa, e aprende a respeitar isso, mas ela também precisa estar ciente que sua vida já existia antes dela aparecer, e você não vai deixá-la de viver como vivia antes porque apareceu um companheiro pra você.

Me tira do sério ver como as pessoas são submissas aos namorados, chegando a um ponto patético de não poder sair porque o namorado vai ficar bravo, ou vice-versa. Fico inconformada, porque as pessoas se machucam, sabem disso, e continuam se martirizando por seres mesquinhos e egoístas que as tratam como escravos que devem seguir as regras impostas por ele.

Acredito que se um dia meu namoro acabar, por algum motivo qualquer, provavelmente eu morrerei solteira. Não consigo encontrar muitas pessoas que entendam que confiar em um namoro não é privar a liberdade do outro, mas sim aceitar que o companheiro tem uma vida paralela e precisa vive-la.

Não peço permissão para sair. Comunico. Se eu quero sair, eu VOU sair, goste meu namorado ou não. Mas também não sou daquelas que troca o namorado pelas amigas... Cada um tem seu dia especial, e se não der pra evitar, vão os dois juntos.

Não suporto que meu namorado me ligue de 15 em 15 minutos para saber onde estou, aonde fui, com quem estou, o que comi e quantas vezes fui ao banheiro. Pra que ele precisa saber que chego em tal lugar tal hora e saio dali tal hora, se a rotina é a mesma todos os dias? Que perseguição. Iria me sentir encurralada, acuada, perseguida se fosse assim. Não!

Ciúme também é outra coisa que não suporto. Se meu namorado fosse ciumento, bem... Ele não seria mais meu namorado. Um homem implicar com você porque você conversa com outros homens é ridículo. Na verdade, para mim atesta culpa no cartório, de tão ilógico. Quem acha que ciúme é prova de amor, sinto muito, mas não é. É egoísmo, é pequenez.

Só me pergunto: Quando as pessoas vão aprender a ter amor próprio para ver que encontrar um companheiro para o resto da vida é, na verdade, se libertar, e não quebrar as asas...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sob asas...

"Allégorie de soie” - Salvador Dali


O céu azul chamava para o campo. O dia claro, belo e quente era um atrativo para a diversão. Como programara com minhas amigas, iríamos fazer trilhas pela mata até encontrar a bela cachoeira escondida entre as árvores.

O pique me tirou da cama, e me apressei a me aprontar, tomar café e comer algo bem reforçado, para ter energias e resistir à longa caminhada. Encontrei minhas amigas em casa, fomos até a entrada da mata, e começamos a seguir o espaço de terra já traçado por outros em meio a tanto verde.

Após minutos de caminhada, entramos em uma clareira. Era o meio do caminho. O sol estava a pino, e logo chegaríamos às águas. Já dava para ouvir o barulho da correnteza trombando contra as pedras, umedecendo o ar.

Enquanto cruzávamos o clarão, uma linda borboleta passou sobre nós. Era enorme, de um tom azul brilhante que captava a visão. Meu pânico por bichinhos que quando você pisa, fazem “crack” não me deteve: Continuei olhando para a borboleta, que dançava e rodopiava pelo céu. Ela estava longe, afinal.

Admirava as cores do belo inseto (parece paradoxal – belo inseto), quando ouvi um gemido de susto saindo engasgado da garganta de minhas amigas. Instintivamente, olhei para trás, e vi borboletas ainda maiores, gigantes, que faziam sombras enormes no chão, passando sobre nós. Eram muitas. Inúmeras. De todas as cores, naquele vôo que sobe e desce, descoordenado e desequilibrado. Meu coração acelerou. Uma borboleta passando sobre mim era fácil de tolerar, mas um panapaná passando sobre mim era aterrorizador.

Entrei em pânico. Meu coração descoordenado não me deixava pensar. Minhas mãos e pernas tremiam inconscientemente, eu suava frio, e minha vontade era de gritar. Meu pressentimento era que iria morrer logo ali, enquanto aqueles bichos gigantes cruzavam o céu.

Me joguei no chão, e comecei a chorar desesperadamente. Encolhida como uma criança, não olhava para cima, e tentava deduzir quando aquele monte de bichos se afastaria, para que eu pudesse levantar e sair correndo dali. Mas não cessava. Eram dezenas, centenas de borboletas cruzando o céu. Umas mais baixo, outras mais alto, mas todas estavam passando por ali. Minhas amigas gritavam também, agachadas no chão, em pânico conjunto.

Ouvi um barulho na grama.

Abri os olhos.

De repente, vejo um par de asas, bem em frente a mim, dando aquelas batidinhas que só borboletas dão, que parecem um piscar de olhos de quem aprontou alguma e não quer dizer. Foi demais. Não foram só as asas que me assustaram. Olhei para o corpo escamoso do bicho, e as patinhas que se mexiam, e eram quase do tamanho do meu braço. Antenas gigantescas procurando por algo. Era um monstro colorido, em minha direção. Em um ataque de pânico, corri. Levantei, pouco me importando com o resto das borboletas que ainda cruzavam o céu, e corri como louca pelo campo, até entrar de volta no caminho de árvores que viera. Continuei correndo, incansavelmente, até chegar à entrada da mata. Meu corpo estava adormecido, de tanto tremor. Eu gritava, e minha garganta doía. Perdi a consciência.

Acordei com água no rosto. Minhas amigas tentando me reanimar do susto. Ainda estava na borda da mata, mas nada me impedia de ver o sol. Nunca desejei tanto poder ver o sol.

Voltamos para casa, quietas.

Desde então, não tolero mais dias quentes, nem matas, nem águas. O medo roubou a emoção do verão.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Repressão

Não sei mais usar as palavras,
Não sei mais controlar minha mente,
Não sei mais conviver com o mundo.

Cansei de ser crítica,
Cansei de tentar ser sincera,
Cansei de ser transparente.

Cansei de sempre errar
e repetir sempre os mesmos erros.
Eu vejo meus passos errados, sei que são errados, mas sempre caio no mesmo caminho.

Cansei.

Preciso de ajuda,
Porque eu sozinha já não sei mais cuidar de mim.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Moça do Café



Edward Hopper - Automat

O sol já estava baixo a oeste, e a silhueta de uma jovem senhora ainda ocupava o mesmo lugar em uma cafeteria. Estava ali havia horas, e permanecia com a mesma expressão no rosto. As lágrimas tinham deixado um caminho brilhoso em sua pele e seus olhos estavam tão inchados e tristonhos que haviam deformado parcialmente a feição da mulher. Não bebia e nem comia nada. Apenas esquecera o olhar fixo na mesa e se perdera dentro de pensamentos.

Muitos já haviam comentado sobre o que se passara com aquela infeliz. Eu olhava constantemente para aquela moça e me perguntava se realmente seria verdade o que diziam sobre ela. Ela, aparentemente, era quieta, fechada, mas doce. Conseguia misturar a tristeza e a alegria com um só gesto. Talvez essa dúvida e curiosidade tenham me deixado ali, sentado do outro lado da cafeteria, observando os poucos movimentos por ela feitos.

Com o passar do dia, descobri que seu nome era Marta. Aliás, bastou-me as duas horas críticas daquela manhã de inverno pra descobrir boa parte da vida da moça. Fui casado por trinta e dois anos e acredito que não conhecia todas as histórias da minha falecida esposa. E, em duas horas eu conheci a vida de Marta.

Enquanto tomava meu habitual café, entraram no local duas senhoras da cidade, que, ao se depararem com a presença de Marta, começaram a balbuciar palavras agressivas e, em certo tom, caluniadoras. Eu as conhecia, e, como já havia notado a presença insossa do alvo da crítica, resolvi me situar e tentar saber mais sobre o assunto:

- Bom dia, Joana. Bom dia, Clara. Tagarelando já cedo? – e ri, suavemente, para não aceitarem como crítica meu começo de conversa.
- Bom dia, Jorge. – Disseram ao mesmo tempo, retribuindo meu sorriso.
- Pois bem, senhoras. Notei que comentavam sobre aquela moça, logo ali no canto...
- Sim, Jorge. – disse Clara – Aquela é a Marta, morava nas terras do Senhor Luarte. Morava... – e desdenhou a moça com um riso no canto da boca...
- Como você não ouviu falar dela, Jorge? A cidade toda comenta o que ela fez àqueles pobres meninos.
- Meninos? Que meninos, Joana?
- Jorge! Em que mundo você vive? Como você não se lembra do desaparecimento de dois filhos de uma empregada do Senhor Luarte? – Clara parecia estar indignada comigo.

Eu parei por um tempo e fiz uma busca mental, e, encontrei vagas lembranças do tal caso. Nunca me importei muito com a vida das pessoas da minha cidade. Depois que minha mulher faleceu, eu não sentia mais ânimo para comentar a vida com meus conhecidos, e fui me distanciando pouco a pouco do que acontecia no povoado. No entanto, o caso dos dois meninos foi algo marcante. Saiu nos jornais e foi anunciado nas rádios. Até que a mãe foi coagida a desistir da busca. Um mês depois soube que ela se matou, e soube também pelos jornais.

Olhei novamente para Marta, ela mantinha a mesma expressão cabisbaixa e tristonha, e não consegui enxergar motivos que a levassem a cometer tal crime.

- Mas, senhoras, o que me dizem? Como alguém como aquela moça ali pode causar mal a alguém?
- Há umas duas semanas, Jorge, a Marta ali pediu que um rapaz capinasse a beira do rio que passa ao fundo da casa dela. Ele descobriu umas plantas enraizadas profundamente e decidiu tirar dali. Porém, quando ele começou a cavar, encontrou uns ossos, que pareciam de uma mão pequena. Ele continuou cavando, apavorado, e achou dois corpinhos juntos, um ao lado do outro, enterrados e já em estado de podridão.
- Isso mesmo, Clara. E, sabe Jorge, a Marta não suportava ver crianças brincando em seu quintal. Ela cuidava com todo carinho das plantas que ali tinha, e, como não saia quase nunca de casa, as flores eram suas únicas companheiras...
- Ela até chegou a jogar pedras nos meninos uma vez, quando os viu arrancarem uma das rosas que acabara de florir... Pelo menos foi o que ouvi da mãe das crianças antes dela...
- Ela tinha uma implicância com aqueles meninos... E você sabe que só identificaram os garotos por causa dos cabelos negros, Joana?
- Eu ouvi dizer! Imagine como a mãe dos garotos reagiria se visse os corpos dos pequenos ali, enterrados sem dó, jogados numa vala?
- Mas senhoras, vocês acham que isso são provas de que a moça possa realmente ter matado as crianças? Parece-me uma teoria absurda!
- Jorge, são evidências. Ela sempre foi esquisita e reclusa mesmo. Sempre permaneceu trancada dentro daquela casa. Sempre odiou que mexessem em suas plantas... Sabe, Clara, eu chego a pensar que possa haver mais “coisas” enterradas naquele quintal.

Nesse momento, percebi que para mim, continuar ali, ouvindo baboseiras e fofocas não acrescentaria nada no que eu gostaria de saber sobre a moça. Despedi-me das senhoras, e antes de voltar à minha mesa, dei mais uma olhada para Marta. Dessa vez, vi uma lágrima caindo de seus olhos. O sol refletiu o brilho.

Mais tarde, por volta das onze horas da manhã, entrou na cafeteria um senhor que eu conhecia da escola. Sentamos e conversamos durantes muitos minutos, até ele notar a presença da suposta criminosa. Quando a viu, parou um instante analisando a mulher. Eu fiz o mesmo e vi que agora, ela não mais chorava, mas olhava constantemente para as mãos, como se procurasse provas ou indícios de algo. Analisava minuciosamente.

Fiquei perturbado com a cena, mas fui chamado à conversa com meu amigo, quando ele se aproximou e disse baixo perto de mim:

- Sabe, Jorge... Tenho pena daquela moça ali (e apontou por cima do ombro para Marta). Mas tenho mais pena mesmo é da mulher do senhor Avarantes...
Fiquei confuso. Não entendi a deixa, nem o porquê da mudança drástica de assunto, e continuei olhando para o homem, como alguém que pede explicações pelo olhar. Ele continuou:
- Ouvi dizer que o Luarte se endividou com o Avarantes não sei por conta de quê, e foi obrigado a fazer um serviço meio sujo em troca. Também ouvi dizer que o Avarantes andou conquistando as moças que trabalhavam para o Luarte, e também já ouvi boatos de que há uma possibilidade daqueles meninos serem filhos do “arrasa corações”. Junta tudo, querido Jorge...
- E o que a mulher do Avarantes tem a ver com o caso, homem?

- Ela descobriu que o marido não lhe era fiel. Descobriu, mas continuou casada com ele, como cumprimento de contrato. Mas, desde então, não tem mais dado as caras em bailes que costumava freqüentar.
- Pois eu continuo tendo mais pena mesmo daquela senhora ali. Não vejo culpa nos olhos dela...
- Ela era bem calada e fechada, Jorge. Mas se eu tivesse que apontar o culpado, diria que Avarantes obrigou Luarte a fazer o serviço.
- Você insinua que Luarte matou as crianças?
- Tem lógica, não? Enfim, caro amigo. Tenho de ir. A patroa espera pro almoço.

Almocei na cafeteria, como de costume também, e continuamos ali, eu e Marta, um em cada canto do estabelecimento. Eu olhando para ela, ela olhando para o nada. Já não olhava mais para as mãos.
Ela não comeu. Ninguém lhe ofereceu almoço. Por piedade à moça, levantei-me e cheguei perto de onde estava. Ela não me olhou, mas não hesitei em perguntar:

- Moça, a senhora não vai comer? Notei que não comeu nada desde que está aqui...
- Minhas mãos, senhor...
Ela voltou a encarar as mãos, e não teve medo de que eu as visse. Tinha terra embaixo das unhas e arranhões de espinhos por toda a pele.
- Minhas mãos... Eu não... Não foi a intenç....

E ela não concluiu a palavra. “Não foi a intenção?”. Permaneci ali, ao lado da mesa em que estava, por mais alguns segundos. Ela agia estranhamente e não me disse mais nada. Voltei à minha mesa e lá continuei, a tarde toda.

Pouco antes do pôr do sol, entrou um homem bem-vestido e de olhar neutro no local. Eu o reconheci. Era o tal Avarantes.

Ele ignorou minha presença, mas notou Marta aos fundos. Ela, instantaneamente, o viu e seus olhos pararam, em choque, quando encontraram os dele. Avarantes a desdenhou e voltou sua atenção ao atendente. Marta ficou irrequieta e começou a tremer.

Avarantes sentou em uma mesa não muito próxima dela, nem de mim, e ali ficou, tomando seu café, lendo seu jornal e, volta e meia, abaixando-o para fitar a senhora. Ele a intimidava. Depois de alguns minutos, deixou o local.

Marta paralisou seu olhar novamente na mesa. O sol se punha a oeste.

De repente, em um ato rápido, ela se levantou, pegou sua mala, e se dirigiu à porta. Eu a acompanhei com o olhar. Ela hesitou em sair, mas deixou, mesmo assim, o local. E começou a andar pelas calçadas.

Eu a acompanhei até onde os vidros do “café” me deixaram ver. Por onde ela passava, tudo se tornava mudo, calmo. Todos fugiam de seu caminho. Pude notar que mexia os lábios enquanto andava e olhava para a mão vazia...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A Dança


Se um dia me perguntarem o que mais me faz falta nessa vida de estudante, eu insistentemente responderei: A dança.

Dentre tudo o que tive que abrir mão, dentre as distâncias que tive que suportar, a mais doída, a que não teve volta, foi a dança. Quando eu encontrei como relaxar as angústias, como esquecer o mundo, ouvir meu corpo, sentir a música... Quando descobri que meus limites de movimento não eram os verdadeiros, quando comecei a explorar tudo o que poderia fazer e não sabia, eu disse adeus...

Nunca fui muito fã de esportes, nunca fiz ballet. Queria fazer jazz ou sapateado, mas nunca cheguei perto de aprender os movimentos. Quando descobri a dança do ventre, me encontrei. Talvez porque aprendi a dança com seu verdadeiro propósito: Homenagear uma deusa, despertar a deusa que há em você, e não usar o corpo para seduzir por simplesmente conseguir deslocar mais os quadris do que numa outra dança qualquer.

Hoje não posso voltar a dançar. Não há lugares (decentes) aqui onde estou. Não tenho como fazer a dança aos finais de semana, já que nem sempre volto à minha cidade.

Vejo as fotos, vejo vídeos, vejo roupas...

E sempre sonho com o dia em que voltarei a dançar, que terei meu cantinho no guarda-roupa com roupas de dança, com véus e adornos...

Um dia tão distante, eu sei, mas um dia que virá. É minha certeza.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Lua...



Era fim de tarde, durante aquela hora crepuscular em que o sol agoniza, luta e desafia a escuridão, mas não consegue vencer a força da noite. O azul do céu era denso, forte, mas ainda alaranjado com os gritos de sol.

Na imensidão de cores, no mar azul-negro do céu, nuvens claras e sombreadas tomavam espaço, ganhavam formas curtas e esparsas, tilintando o véu com pontos claros no fim da tarde. O sol brilhava naquela água suspensa, destacava aquele acúmulo de gotículas, como uma pintura ilusionista, realçando o relevo, mas mascarando os limites.

Não era o anoitecer mais belo. Era triste. As cores eram tristes. Os arranjos eram tristes. Os tons alternavam de azul para cinza e depois para ocre, numa constância nauseante e imutável.

Mas ali, logo ali no horizonte, por trás de um filete grafite de nuvens, iluminava o céu a lua esplêndida. Diante de toda aquela natureza morta que tomava o céu da tarde, destacava-se ao longe, grande e majestosa, a lua. Era a luz. Era uma bola no céu, harmonizando o momento. Uma esfera amarela reluzente, quase branca, vibrando por trás das nuvens cinzas, num céu azul-negro.

Lua cheia. Aquela lua em que se podem ver as manchas, e imaginar como seria estar naquela gravidade suave, naquele terreno inóspito. A lua em que se vêem coelhos, feições, borrões. A lua que parece maior que o céu.

Era a harmonia da noite.

Derrotou o sol.

Tomou a noite.

A lua...

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"Mente quem diz que a lua é velha
Mente quem diz..."



segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Novos ares


Dizem que amigos não se perde. Não é verdade. Eu sei que não é.

As coisas não estavam bem. Eu podia sentir o ar pesado, massacrando meu corpo quando estava perto dela. Era como se uma força emanasse dela, em direção a mim, me impelindo para longe, bem distante. Eu já notara havia dias, e queria saber o que acontecera.

Não sou do tipo de homem que guarda para si todas as angústias e medos. Sempre fui aberto e consegui expor a todos o que sentia, e dizer a todos tudo o que me chateava. Sempre pareceu mais fácil manter uma relação assim. Com ela era tão fácil ser sincero. Era uma amiga verdadeira, pelo menos para mim. Me ajudava, e compreendia. Mas agora, estava distante.

A distância me incomodava. Sempre penso que se uma pessoa mantem um raio de distância a mim, é porque a culpa é minha. E eu tinha que descobrir o que estava havendo. Não dava mais para esperar.

“Está tudo bem com você? Você anda tão distante. Eu te fiz alguma coisa, magoei você de alguma forma?”

“Está tudo bem”

“Eu não acredito em você. Eu sei que NÃO está tudo bem. Você nunca foi assim. Sempre foi divertida, agora mal me responde as perguntas, mal dirige a palavra a mim.

“Só estou sobrecarregada de trabalho, cansada.”

“Não acho que isso seja motivos para você ficar distante assim. Por que não me conta o que aconteceu? Me diga o que eu fiz de errado, para eu poder consertar meu erro.”

“Você não fez nada. Só preciso de novos ares...”

“Você quer se afastar e diz que não tem nenhum motivo aparente? Me desculpe, mas isso para mim é uma desculpa esfarrapada!”

“Não quero dizer o que aconteceu. Não quero piorar as coisas. Prefiro me afastar.

E eu concordei, como um cavalheiro que respeita a opinião de um amigo, mas não concorda. Concordei porque a resposta dela me doeu mais do que um tapa na cara, me doeu mais do que se ela tivesse jogado em minha cara tudo o que eu tivesse feito e a tivesse magoado. Ouvi-la dizer que preferia novos amigos a me contar a verdade foi dilacerante. Eu não conseguia entender, poxa vida! Tínhamos as mesmas idéias, os mesmos pensamentos, criticávamos as mesmas coisas e desgostávamos de poucas coisas diferentes – como dois amigos normais: distintos um do outro, mas compreensivos, e ainda assim, ela se recusava a me dizer onde eu errei.

Depois daquela conversa, nada foi o mesmo. Ela se afastou - mais. Me ve na rua, e finge que sou um desconhecido. É mais simpáticas com estranhos do que comigo, que já compartilhei muitas angústias. Respeitei a decisão dela, mas nunca a aceitei. Ainda me dói ve-la passando por perto e fingindo não conhecer, demonstrando insignificância.

Tudo mudou. Nada mais foi o mesmo. Agora há um muro entre nós, e embora eu já tenha tentado escalar e subir e gritar por cima dele, nenhum som ultrapassa essa área gélida e morta que se construiu entre nós dois.
Amigos a gente perde sim. Sempre. Porque as pessoas não tem coragem de dizer em nossa cara do que ela não gostou. Preferem se calar para não magoar nossos sentimentos, e magoam mais ainda não dizendo absolutamente nada.

Eu perdi, sim, uma grande amiga. E não sei o porquê.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O ladrão de Chocolates


Era um almoço solitário. Eu havia ido ao restaurante sozinha, e não há nada mais triste do que almoçar sozinha – a gente pensa em tudo e nada ao mesmo tempo, gasta tempo demais pensando em baboseiras enquanto enfia garfadas de comida guela abaixo, até limpar todo o prato que antes estava cheio de cores.

Comi. Bebi meu suco. Paguei minha conta, e como sobremesa, me dei um bombom “Alpino”, daqueles bem pequenos, mas gordinhos e macios, com o sabor único que o chocolate pode ter.

Estava prestes a deixar o restaurante, com meu bombom em mãos, quando avisto um grupo de amigos almoçando em um outro canto do local. Fui convidada a me juntar a eles, e me juntei. Alguns já haviam acabado de comer, outros estavam nos momentos finais...

Conversa vai, conversa vem, o papo deu uma trégua e eu me lembrei do bombom que ainda segurava. Feliz, descasquei aquela embalagem dourada com cuidado, como se de dentro dela fosse sair um bombom de ouro. Retirei o papel, e com todo cuidado de quem deseja degustar com calma e paz um bom chocolate, dei uma sutil mordidinha no bombom – bem pequena mesmo, porque não há motivos para devorar algo tão pequeno em tão poucos segundos se há como saborear aos poucos e atrasar o final inevitável.

Por educação (que às vezes eu juro que não sei porque tenho), ofereci um pedaço à turma. A turma era bem maior do que restava do meu bombom, mesmo se todos mordiscassem o chocolate como eu havia feito – mas mamãe me ensinou a sempre compartilhar as coisas, e eu – criança inocente – acreditei que assim deveria fazer.

Como toda pessoa sensata, cada um que eu olhava, recusava gentilmente um pedaço do meu bombom, sorrindo – talvez pela graça da situação mesmo. Quem oferece um pedaço de alpino? Eis que quando ofereço meu pequenino bombom ao último da mesa, ele aceita um pedaço. Quando ele aceitou, eu, gentilmente, cedi meu bombom a ele. Ele abriu a boca com gosto, como se lá coubesse a fábrica inteira da “Nestlé” naquele momento, e atacou vorazmente o meu chocolate. Dilacerou mais da metade do bombom, fez cara de “huuuum, que delícia – Veja, estou saboreando cada micrograma do seu chocolate”, e continuou segurando o bombom. Eu continuei olhando, abalada demais para dizer alguma coisa, esperando que ele gentilmente me retornasse o que havia restado do meu finado bombonzinho, mas ele continuou lá, enforcando meu chocolate, enquando suas mãos começavam a ficar marrons pelo bombom derretendo. De repente, em um ataque mais do que rápido, ele enfiou todo o pouco resto do meu alpino na boca, e saboreou... Lambeu os dedos, um a um, como uma dama faria para provocar um homem louco de desejo.

Minha fúria, nesse momento, transpareceu. Consegui conter minha língua, mas meus olhos fuzilantes metralharam aquele assassino de bombons. Olhei indignada a cada um dos que estava na mesa, e todos estavam tão pasmos quanto eu, tentando entender a audácia do indivíduo que ainda mastigava os últimos restos do meu delicioso bombom. Meus olhos encontraram os olhos de cada um que presenciara aquela cena, e conversamos por olhar durante aqueles segundos de silêncio.

“COMO ELE TEVE CORAGEM DE COMER O MEU ALPINO???”

Meus amigos ficaram com dó de mim. Acho que eles haviam percebido o quanto eu estava me deliciando com aquele momento que deveria ter sido só meu – o de comer o chocolate como a melhor sobremesa do mundo. Quiseram me comprar chocolates para compensar minha perda.

Mas nada no mundo substitui algo que a gente perde sem ao menos esperar...

Eu perdi o meu alpino.

domingo, 23 de agosto de 2009

Que paciência, que nada!


Alguém já percebeu que toda vez que estamos estressados, prestes a matar um que atravesse aquela linha invisível que construímos quando estamos com raiva, pensamos em deus e pedimos paciência?

Pois bem. Eu descobri que pedir paciência não é a melhor solução. Aliás, descobri que quanto menos a gente pede, melhor, porque a gente nunca gosta do que recebe em troca.

Se pedimos paciência, ele manda um daqueles problemas (ou pessoas mesmo) bem encardidos pra testar você ao máximo – óbvio! Deus nunca dá nada de mão beijada, então ele não iria iluminar você, colocar aquela musiquinha “oohhhh” de fundo e falar “Pronto, meu filho, eu te concedo o dom da paciência”. E BUM! Você se torna paciente. Então, o que ele faz? Ele manda um problemão que, se você conseguir solucionar, vai ser porque teve paciência. Lindo, não é? Você já estava soltando fogo pela boca de nervoso, e chega mais um problema pra atazanar. Mas fazer o quê? Foi você que pediu...

É como pedir força. A gente pede força e espera por paciência. Só que como queremos ser fortes, o problema que ele manda é aquele que você tem vontade de socar como se fosse um daqueles almofadões de boxe. Ué, você pediu força? Ele tá te testando.

Por isso, por uma única vez na minha vida, eu gostaria que minha boca ficasse quieta e que minha mente incansável parasse de pensar todas as vezes que eu estivesse prestes a perder a paciência. Queria que fosse como uma chave de energia – Você vai esquentando, esquentando... E quando tudo está quente demais e você acha que vai explodir, PUF, ela desliga, e você fica paralisado, no limbo, até tudo esfriar e você conseguir ligar a chave de novo.

Ahh! Se fosse assim, eu seria a pessoa mais feliz do mundo, porque todas as vezes que estivesse prestes a pedir “Dai-me paciência, senhor!”, a chave iria cair, e ele nunca iria me escutar.

É, mas como isso é simplesmente um sonho e nunca vai acontecer, por enquanto eu vou tentando comprar chaves que aguentam mais energia, que aguentam mais calor... Vou trocando a fiação de mim mesma e torcendo para que eu nunca chegue naquele estágio em que você está querendo abusar demais da situação e não há fio ou disjuntor que aguente.

Are baba!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Gripe etílica, neurose suína



Alguém já parou para pensar como esse novo vírus, que nem é tudo aquilo que todos esperavam que fosse, foi capaz de incorporar as normas básicas de higiene na população?

Essa onde de globalização da doença está transformando a população em um bando de loucos por esterilização: A mídia manipula as informações que divulga, e o povo simplesmente se apavora.

Essa onda de limpeza, pra mim, começou quando aquele infeliz difamador da classe dos biomédicos – o tal do “Dr. Bactéria” – começou a divulgar no fantástico que nem tudo é tão “limpinho” quanto parece. Começou a dizer que não pode lavar alface e guardá-la lavada, que tábua de carne e “mexedores” de madeira são um mundo de fungos e bactérias... E o povo começou a se desesperar, com medo da ameaça invisível e microscópica dos “germes”.

O problema é que ninguém nunca parou para pensar em como isso SEMPRE esteve presente em nosso mundo e raramente nos afetou. Tudo bem, uma infecçãozinha gástrica ou uma virose de vez em quando são comuns, afinal de contas, é pra isso que existe nosso sistema imunológico, mas fazer desses seres microscópicos os vilões da história que exterminarão o mundo é sensacionalismo demais.

Todo mundo esquece de lembrar que graças a bactérias e fungos – sim, ou você achava que “flora intestinal” era uma área verde de preservação máxima em seu intestino? – são essenciais para conseguirmos alguns nutrientes e sobrevivermos. Todos se esquecem de que há bactérias em nossas mucosas, em nossa pele, em nossa boca, na maçaneta da porta, no corrimão da escada, no ovo que saiu do ...*tuu*... da galinha, no plástico que está na boca do danone que vc bebe na própria embalagem, no guardanapo de papel, que está no restaurante, e que um monte de gente já roçou a mão... Eles estão em TODOS OS LUGARES.

Agora, com essa gripe nova por aí, parece que a mídia prega que a solução para todos os problemas é esterilizar. Taca álcool, bota fogo, autoclava, lava com “Cândida”. O mundo é sujo, é nojento, todo mundo espirra, tem vapor contaminado em todos os lugares. Use máscara, não toque, não rele!

Chega agora ao mundo a onda da higiene. Não vou criticar a higiene, óbvio – são procedimentos básicos que todo mundo deveria seguir sempre, e agora só está aplicando no dia-a-dia porque tem medo de morrer por um vírus que nem mata todo mundo.

Cadê o medo do HIV? Cadê o medo da meningite? Do sarampo? Da varicela? Da hepatite? Do HPV? Da sífilis? Da tuberculose? Da dengue? Da malária? Da doença de Chagas?

Alguém já parou de viver essa paranóia de H1N1 e analisou que morre mais gente das doenças que já conhecemos e sabemos como evitar (e não evitamos, veja bem!)? Alguém já parou pra pensar que usar camisinha preserva mais sua vida do que lavar a mãozinha com um álcool que SÓ PROTEGE se tiver teor de 70% (sim, povo, não adianta comprar álcool em gel cheiroso ou aqueles da marca “Veja”, porque o teor não chega nem a 50%), e olha lá? Alguém já viu as estatísticas pelo lado inverso? – Morreram 200 de gripe suína, mas 160 mil sobreviveram?

Chega dessa neurose de mundo estéril, pessoas. Parem de criar essa ilusão de que os “germes” são nossos inimigos. Por que todo mundo se esquece de que a mídia é sensacionalista? Procurem se informar de verdade. Ser saudável não é viver numa bolha, é simplesmente saber selecionar em que acreditar e como prevenir. Não é preciso ser radical.

sábado, 15 de agosto de 2009

PALMITO!


Há quem não acredite em telepatia. Eu mesma era bem assim, descrente dessa sandice toda de leitura mental. Acreditava em sintonia, mas nunca nessa história de que um fulano pode transmitir o pensamento pro ciclano.

Pois bem, essa era eu. Descrente. E como todo descrente de qualquer coisa, sempre acontece algo extremamente bizarro que te faz enxergar aquilo que você não queria ver. Comigo, a culpa foi do palmito.

Era um começo de manhã, acredito que por volta de 6h. Eu dormia esparramada em minha cama, sonhando com algo que realmente me fazia feliz e me deixava satisfeita no sonho, eis que... No meio do MEU sonho feliz, aparece minha mãe. – Sério, mãe sempre aparece pra acordar a gente na hora errada, mas dessa vez ela sequer teve o prazer de abrir minha porta: simplesmente entrou no meu sonho, fez com que o meu “background” evaporasse como fumaça no céu, e começou:

“Helô, eu quero fazer uma torta amanhã e não sei do que faço...”

Eu olhei pra ela, pensei e respondi “Faz uma torta de palmito, mãe”.

Ela não ouviu. Tudo bem, meu sonho já tinha ido pro saco mesmo... Lá foi ela perguntar de novo... “Do que eu faço a torta?” – E lá fui eu responder de novo “Palmito, mãe”.




O problema era que ela não me ouvia. Ela estava do meu lado, no MEU sonho, e ficava me estorvando, perguntando incansavelmente do que fazia a bendita da torta. 

Conforme eu fui sempre respondendo a mesma coisa, eu fui me estressando, até que quando ela perguntou acho que pela sétima vez, eu fiquei tão revoltada, mas tão possessa de revoltada que puxei todas as forças dos meus pulmões pra berrar e pra ela ouvir.

“PALMITOOOOOOOOOOOO” – Respondi. Respondi E acordei respondendo, literalmente berrando com todas as forças dos meus pulmões, às 6h da manhã de um domingo. Ainda gritava quando me dei conta do que estava berrando aos sete céus (ou aos seis andares de apartamentos, no caso), e me calei, pasma comigo mesma de que minha mãe tinha me feito pagar um mico estúpido que provavelmente acordou até o porteiro. 

Percebi o que tinha feito, percebi o quanto era ridículo ter berrado PALMITO a 1000dB às seis horas da manhã num domingo, provavelmente fiquei roxa de vergonha quando me toquei disso, mas virei de costas pra porta e fingi que dormia feliz, pra tentar enganar qualquer um que aparecesse na minha porta perguntando “Você enlouqueceu?!”.

Sei que dormi até umas 10h. Juro que enrolei na cama aquele dia com vergonha de levantar. Mas levantei. Levantei e fui falar bom dia para minha mãe. Ela me viu, olhou pra mim, e riu.

É, pelo menos a minha mãe eu tinha acordado...

Eis que ela pergunta: “Você sabe o que você gritou dormindo hoje de manhã?”

É, não tinha escapatória... “Sim. Palmito...” – e me apressei a explicar logo o porquê do berro, antes que ela tirasse sarro de mim. Não adiantou. Eu terminei de contar, ela começou a rir mais.

Sabe como é – ninguém fica de bom humor logo que levanta. Ela tava querendo me provocar. Eu perguntei o que acontecia, e ela disse:

“Sabe o que é mais engraçado? Fazia uns cinco minutos que eu tinha acordado e estava deitada na cama, pensando no que fazer de janta hoje. Daí pensei numa torta, mas não conseguia pensar numa torta do quê. E fiquei lá, pensando do que poderia ser o recheio, e de repente ouço você gritando “PALMITOOOOO” “. 

Eu “O.o”. 

Não sabia o que pensar. Não sabia se ficava brava com minha mãe, pela força do pensamento dela ter esfumaçado meu sonho e me feito esguelar como uma ensadecida, ou se ficava assustada, pelo mesmo motivo. Refleti... 

“Telepatia”.

Sei que foi a prova pra mim de que telepatia existe, porque minha mãe não havia demonstrado vontade, nem idéia de fazer a tal da torta anteriormente.

E sei que naquele domingo, na janta daquele domingo, eu comi torta de palmito!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Esperanças




Após uma longa ausência, enfim, consigo respirar ares que não remetem à livros. Essa é a vida dura de quem não programa tempo para blogs... rs

Sinto uma sensação de alívio. E não é só pelas provas que se foram e pelo semestre que acabou - aos trancos e barrancos, mas acabou.
Sinto alívio pelos novos rumos que minha vida terá de tomar daqui para frente. Nunca pensei que fosse passar por tanto sofrimento, tanta infelicidade e tanta injustiça em tão pouco tempo, mas a vida esperou que eu completasse meus 20 anos para começar a surpreender. E temos que erguer a cabeça e levar a vida para frente.

Em dois anos, o mundo começou a desmoronar... Perdi tantas pessoas queridas, que cheguei a sentir um vazio que chamei, então, de saudades. Perdi esperanças de continuar, senti medo, achei que tivesse que abrir mão de tudo o que conquistei agora para conseguir sobreviver. Mas aquele ditado que todos usam para se confortar no momento de desespero me acalmou, justamente por me obrigar a ter fé. Sim, "Deus escreve certo por linhas tortas".

Sei que daqui para frente tudo vai mudar. Sei que passarei por momentos difíceis, e que terei que aprender a viver a vida de um jeito diferente. Mas a vida ensina a gente a lidar com as dificuldades mesmo quando achamos que não seremos capaz.

Ah! Alívio, enfim.

No final, todos estaremos bem. Basta esperar.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quero adotar um cãozinho!

Um de meus maiores desejos é poder um dia adotar um cãozinho desses de rua, cheio de carências, e transofrmar a vida desse bichinho, até que ele envelheça com um lar.

Nada me corta mais o coração que ver cachorros abandonados, magricelas, procurando comida, procurando amor. E por mais estranho que possa parecer, sim, eu tenho mais dó de cachorros e gatos.

O homem pega esses pobres bichinhos, não cuida adequadamente, deixa que procriem a torto e à direita, e depois despeja os filhotes em qualquer canto, ou doa os bichinhos a qualquer um. Esses pobres filhotes, então, passarão a viver nas ruas, mendigando água, restos de comida, mendigando carinho que ninguém dá, porque o bichinho está todo cheio de sarnas e fedido.

Esses pobres animais vagam quilômetros e quilômetros, comendo lixo, bebendo água de poças, pegando doenças, e quase ninguém tem a coragem de ir lá e resgatar o pobrezinho.

Nós, humanos, damos importância a animais de raça, pagamos por “pedigree” para termos um cachorro bonitinho, que agrade visualmente a todos, mas não temos o coração grande o suficiente para deixarmos de lado o esse medo que temos de como a sociedade vai nos ver com um vira-latas, e não com um bichinho de pelagem bonita, cor deslumbrante e carinha peludinha.

Infelizmente ainda não consegui cumprir esse meu maior desejo, mas toda vez que vejo um cachorro triste, me seguindo, com aquele olhar caído de quem implora ajuda, implora piedade, implora carinho, atenção, calor, alimento… Toda vez que vejo esses bichinhos, tenho vontade de chorar, por não poder abraçá-lo e levá-lo para casa, cuidar até que todas as suas doenças se curem, e torná-lo um membro da minha família até o fim. Ainda me falta espaço e dinheiro para isso.

Sabe aqueles desejos que você estabelece quando é criança?
Esse é um dos meus desejos.

Porque para mim, animais são aqueles que expressam de forma mais pura e sincera o que sentem, e devido a esta sinceridade, eu os considero como irmãos para mim.

sábado, 9 de maio de 2009

Por que etê, por que laranja


Um blog ainda cru. Mas um espaço que posso me livrar dos pensamentos que se acumulam em minha mente e me angustiam. Sinto que preciso dizê-los, mas nem sempre há quem os ouça.

Para começar, nada melhor que explicar o porquê da vida ser laranja.

Há três anos, numa madrugada de junho, eu e minha melhor amiga "virtual" conversávamos sobre como pensávamos diferente da maioria das pessoas, como nossos gostos eram distintos do povo "dessa terra".
Surgiu então a grande brincadeira de sermos etês, de não sermos da Terra e estarmos aqui vagueando à procura de... alguma coisa.

E para nos diferenciar, nos nomeamos de acordo com nossas cores preferidas.

Prazer,

Etê Laranja.