quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sob asas...

"Allégorie de soie” - Salvador Dali


O céu azul chamava para o campo. O dia claro, belo e quente era um atrativo para a diversão. Como programara com minhas amigas, iríamos fazer trilhas pela mata até encontrar a bela cachoeira escondida entre as árvores.

O pique me tirou da cama, e me apressei a me aprontar, tomar café e comer algo bem reforçado, para ter energias e resistir à longa caminhada. Encontrei minhas amigas em casa, fomos até a entrada da mata, e começamos a seguir o espaço de terra já traçado por outros em meio a tanto verde.

Após minutos de caminhada, entramos em uma clareira. Era o meio do caminho. O sol estava a pino, e logo chegaríamos às águas. Já dava para ouvir o barulho da correnteza trombando contra as pedras, umedecendo o ar.

Enquanto cruzávamos o clarão, uma linda borboleta passou sobre nós. Era enorme, de um tom azul brilhante que captava a visão. Meu pânico por bichinhos que quando você pisa, fazem “crack” não me deteve: Continuei olhando para a borboleta, que dançava e rodopiava pelo céu. Ela estava longe, afinal.

Admirava as cores do belo inseto (parece paradoxal – belo inseto), quando ouvi um gemido de susto saindo engasgado da garganta de minhas amigas. Instintivamente, olhei para trás, e vi borboletas ainda maiores, gigantes, que faziam sombras enormes no chão, passando sobre nós. Eram muitas. Inúmeras. De todas as cores, naquele vôo que sobe e desce, descoordenado e desequilibrado. Meu coração acelerou. Uma borboleta passando sobre mim era fácil de tolerar, mas um panapaná passando sobre mim era aterrorizador.

Entrei em pânico. Meu coração descoordenado não me deixava pensar. Minhas mãos e pernas tremiam inconscientemente, eu suava frio, e minha vontade era de gritar. Meu pressentimento era que iria morrer logo ali, enquanto aqueles bichos gigantes cruzavam o céu.

Me joguei no chão, e comecei a chorar desesperadamente. Encolhida como uma criança, não olhava para cima, e tentava deduzir quando aquele monte de bichos se afastaria, para que eu pudesse levantar e sair correndo dali. Mas não cessava. Eram dezenas, centenas de borboletas cruzando o céu. Umas mais baixo, outras mais alto, mas todas estavam passando por ali. Minhas amigas gritavam também, agachadas no chão, em pânico conjunto.

Ouvi um barulho na grama.

Abri os olhos.

De repente, vejo um par de asas, bem em frente a mim, dando aquelas batidinhas que só borboletas dão, que parecem um piscar de olhos de quem aprontou alguma e não quer dizer. Foi demais. Não foram só as asas que me assustaram. Olhei para o corpo escamoso do bicho, e as patinhas que se mexiam, e eram quase do tamanho do meu braço. Antenas gigantescas procurando por algo. Era um monstro colorido, em minha direção. Em um ataque de pânico, corri. Levantei, pouco me importando com o resto das borboletas que ainda cruzavam o céu, e corri como louca pelo campo, até entrar de volta no caminho de árvores que viera. Continuei correndo, incansavelmente, até chegar à entrada da mata. Meu corpo estava adormecido, de tanto tremor. Eu gritava, e minha garganta doía. Perdi a consciência.

Acordei com água no rosto. Minhas amigas tentando me reanimar do susto. Ainda estava na borda da mata, mas nada me impedia de ver o sol. Nunca desejei tanto poder ver o sol.

Voltamos para casa, quietas.

Desde então, não tolero mais dias quentes, nem matas, nem águas. O medo roubou a emoção do verão.

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