segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A decadência do jornalismo Brasileiro


Torcedores invadindo o campo, em cima de ônibus, depredando aeroportos, ruas da cidade, tomando marginais e rodovias, pulando entre os carros e passando por cima de ônibus e caminhões. Falo agora do time preto e branco, porque foi o time que ganhou ontem, mas sim, generalizo para qualquer time, seja verde, seja tricolor, seja da cor que for! – Todos os torcedores  fanáticos são inconsequentes assim.

Essa permissividade brasileira em conceder qualquer direito a qualquer coisa relacionada a futebol se tornou ridícula: A polícia não faz nada, e a gente não sabe se é por medo, porque gostariam de estar comemorando junto ou se por falta de contingente. A mídia divulga os atos de vandalismo como se fossem permitidos, corretos e justos porque um time de futebol ganhou um título.

Brasil, o país sem lei, não iria fazer alguma coisa justamente agora, contra torcedores “sofredores” (coitados!!), que esperaram mais de cem anos por esse título.

As reportagens (massivas, abusivas, repetitivas, enjoativas!) são narradas por jornalistas que se passam por idiotas ao salientar em voz a felicidade em ver um torcedor agindo como um animal – porque pode! No futebol, nesse país absurdo, tudo pode!

E pior: Se algum torcedor morrer durante seus atos de vandalismo e/ou de depredação de patrimônio público, COITADO do motorista que cometer a infração – que será espalhada pela mídia como “crime hediondo” contra um pobre torcedor que estava em um momento de pura embriaguez, mas feliz.

Essa mídia populista, que se aproveita de um time com grande torcida para ganhar ibope, essa mídia cujo dever seria conscientizar o povo sobre as leis, mas só sabe ressaltar crimes com interesse nacional, sensacionalizados pelas câmeras e TV’s... Essa mídia podre e hipócrita desse país que lutou tanto pelo direito de liberdade, mas usa a liberdade para só publicar porcaria. A mídia que perdeu o dever com a seriedade. Mídia suja, oportunista.

Nessas horas você enxerga claramente como uma emissora se perdeu diante do populismo, como deixou de lado o jornalismo sério para voltar sua transmissão ao foco que lhe convenha. Você nota como não há mais uma linha séria de jornalismo, e somente um jornalismo voltado às massas, voltado aonde tiver público. Não é mais o público que segue a mídia, é o jornalismo que segue o público, independentemente do caminho sujo que tenha que tomar.

Mas... o que esperar do jornalismo de um país sem lei como o nosso?

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Opressão


Havia bandeiras para todos os lados.

Uns gritavam “Azul!!”, outros berravam “Vermelho!!”, mas quem achava que o roxo era a cor certa, era oprimido pelas mentes fechadas daqueles extremos, achando que o mundo vivia em dualidade única.

Os azuis defendiam a revista Cara, os vermelhos, a Coroa. Mas quem gostava de roxo, não podia dizer que lia Cara e Coroa e que tinha sua própria ideia dos fatos, porque os azuis julgavam ser inadmissível a revista Coroa ser digna de informação, e os vermelhos achavam a revista Cara completamente utópica.

Os azuis lutavam pela igualdade a qualquer custo, fosse a humana, fosse entre espécies. Os vermelhos já não eram vorazes em suas opiniões, eram mais calculistas e menos emotivos. Os que gostavam de roxo não podiam decidir sem que alguém o enquadrasse no grupo azul ou no grupo vermelho, porque, afinal, a alienação mental dos extremos acreditava somente em duas possibilidades. Somente no bem e o no mal, e cada cor se auto-enquadrava no bem, e automaticamente dizia que a outra era o mal. E não podia haver alguém que julgasse bom haver bem e mal.

Os azuis não aceitavam ser chamados de azuis. Os vermelhos abominavam serem denominados vermelhos. Qualquer apologia a suas cores era motivo de calúnia, processo, preconceito e difamação. Os roxos não podiam falar de azul sem que os azuis se ofendessem. Os vermelhos não podiam sequer ouvir alguém falar de sua cor que não fossem eles mesmos.

E o mundo estava assim: Tão egoísta e intolerante, tão alienado e superficial, que ninguém mais conseguia ver o verde, o amarelo, o branco ou o preto como partes de um todo.  Para os azuis, o mundo só seria bom se fosse azul. Para os vermelhos, se fosse vermelho.

Para os roxos, o mundo podia ser colorido, podia unificar tudo e todos. Mas os olhos de quem quer enxergar uma cor só nunca conseguem ver todos os espectros do arco-íris. Se não são os olhos que estão fechados ou machucados, mas sim a mente e sua pequenez voluntária, o mundo pode ter todas as cores - pode ser todo branco – mas os olhos de quem ve sempre enxergarão a cor que a ideologia utópica e encrustada naquela mente pequena desejar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Jardineiro


Ela nunca soubera muito bem lidar com os outros. Cansada de tanto errar e ultrapassar barreiras, talvez por proteção, criou uma barreia pessoal com medo de quebrar as regras pessoais dos outros, que só descobrimos quando já é tarde.

Fora assim a vida toda: Sempre que tentara se encaixar em um grupo, iludia-se. No começo, era quieta e cautelosa, com medo de ferir alguém com algo que dissesse espontaneamente, sem a intenção de machucar. Depois de se sentir mais à vontade, plantava a semente da amizade no solo fértil, e a deixava crescer livremente, sem aprisiona-la demais. E sempre, quando esta semente estava germinando e brotando, quando a amizade parecia fluir e finalmente acreditava que ali criaria raízes para a vida inteira, alguém ia lá e a arrancava pela raiz, excluindo-a daquele círculo de amizade que um dia julgara ser o seu lar.

Eram tantas as experiências assim, que já não sentia mais raiva ou ódio quando se via sozinha novamente. O sentimento que brotava em si, agora, era somente de tristeza e decepção. Sentia-se tão humilhada por ter acreditado cegamente naquela nova amizade, por ter sido deixada de lado, retirada do solo onde outras flores cresciam, que não conseguia mais se rebelar com a situação. Apenas chorava, em silêncio, tentando entender porque há jardineiros tão cruéis nesse mundo. A tristeza não cabia em palavras ou em lágrimas... A tristeza de ser trocada, abandonada, esquecida, desprezada por aquelas irmãs do jardim.

Quebrou suas próprias regras quando aceitou semear-se em outros lares, porque de tanto que sofrera, decidira um dia que nunca mais permitira suas raízes ultrapassarem a barreira de seu próprio jardim. E as quebrou porque, mais uma vez, achou que o sol brilharia da mesma forma sobre novos lares. Mas, mais uma vez, iludiu-se e errou.

Após refletir, respirou fundo e ergueu a cabeça. Era preciso arar a terra para continuar a viver em seu pequeno céu.


domingo, 28 de outubro de 2012

Somos tão corruptos quanto eles


Estamos há muito criticando a corrupção, a falta de honestidade política, a falta de caráter político e o despeito com que estes indivíduos mentem descaradamente, sem ter sequer coragem e honestidade de admitir algo que fizeram.

No entanto, políticos nada mais são do que nós, pobres e classe média, com poder e dinheiro a total dispor, a qualquer hora. Na verdade, eles são uma pequena parcela representativa do que é ter dinheiro e poder no Brasil. Ou talvez, no mundo.

Nós, hoje, somos tão corruptos, tão desonestos e tão mentirosos e covardes como são os políticos que elegemos. E se não somos corruptos, somos corruptíveis. E somos hipócritas, a ponto de cobrar que os grandões lá em cima sejam o que não conseguimos ser aqui embaixo.

Podemos analisar quão iguais a eles nós somos através de pequenas ações nossas no dia a dia. Esses pequenos erros e deslizes que cometemos são comparáveis aos que nossos políticos cometem lá em cima, se analisarmos as devidas proporções.

  1. Nós baixamos programas, arquivos, mídias piratas na internet, independentemente de o conteúdo ser para uso próprio ou não. Explicamos isso como uma forma de protesto pelo preço abusivo dos produtos, mas que forma de protesto é essa que fazemos, que tenta se justificar pelo uso indevido dos direitos de alguma empresa? - E cobramos de nossos políticos que não utilizem dinheiro público para campanhas e uso pessoais.

  1. Nós não respeitamos as leis de trânsito. Passamos em sinal vermelho, não respeitamos a velocidade máxima permitida em uma rodovia ou em uma pista, não respeitamos sinais de pedestre ou paramos para eles atravessarem em faixa exclusiva. Mas cobramos de nossos políticos que respeitem a lei, que respeitem nós, cidadãos, e que sigam fielmente a conduta correta, que nós mesmos não seguimos.

  1. Nós subornamos ou somos corruptíveis. Há quem pague guardas para tentar fugir de multas, há quem pague por aparelhos que roubem sinais de comunicação... Mas criticamos ao extremo os políticos que tentam comprar o silêncio de quem sabe demais ou que utilizem meios ilegais para conseguir algo, como transportar alguns milhões de dólares pelo mundo a fora em uma cueca.

  1. Não sabemos separar o pessoal do profissional. Se algo acontece no ambiente de trabalho, com assuntos totalmente relacionados ao trabalho, nos ofendemos e tomamos a afronta como pessoal, pegamos birra de uma pessoa e muitas vezes agimos de formas mesquinhas tentando provar superioridade ou prejudicar a pessoa de alguma forma. Os políticos queimam seus arquivos indesejados, de um jeito ou de outro, quer esse “arquivo” tenha agido propositalmente ou não.


E a lista poderia ser imensamente longa se fôssemos encontrar a semelhança entre nós e aqueles que elegemos. Mas para cada ação corrupta deles que vem à tona, nós temos uma de menor intensidade proporcionalmente igual.

Nós não temos moral para julgar um político que rouba dinheiro público, se estamos sempre tentando tirar vantagem. Menos moral ainda para criticar a política tem aquele que sonega imposto, alegando que o governo já come demais às suas custas. Protestar com a mesma moeda só prova que somos iguais ou piores do que aqueles que criticamos.

Não temos moral para incriminar um político que pagou por um serviço ilegal, porque muitos de nós já aceitaram algum benefício de chantagem para fazer ou não algo, seja esse benefício financeiro, ou não. E se não o fizemos, talvez foi porque o valor oferecido foi baixo. Muitos tem um preço, basta saber o quanto é para pagar.

Não temos moral alguma para pedir que um político seja honesto e cumpra a lei, porque sequer sabemos respeitar uma lei de trânsito, que está totalmente a nosso controle. Quem nunca esteve dirigindo em paz em uma pista, no limite de velocidade permitido, e foi praticamente atropelado por alguém que estava correndo a uma velocidade MUITO acima da máxima? E como vamos cobrar alguma idoneidade política quanto às leis, se ficamos pressionando os outros para que façam algo errado, só para que possamos fazê-lo também?

O caos que se instalou na política brasileira é meramente um reflexo do que é a grande maioria da população hoje: oportunista, hipócrita, corruptível e sem caráter. Basta dar poder a qualquer um que faça essas pequenas ações, que aparentemente não prejudicam ninguém e só beneficiam nós mesmos, e ver que qualquer um que tiver pleno dinheiro e poder nas mãos vai sambar e dançar em cima dos inferiores.

É utópico achar que conseguiremos melhorar o país se não começarmos a partir de nós. Um pouquinho aqui, outro pouco ali e esse pouco passado adiante de geração a geração pode sim mudar um país inteiro. Mas precisamos começar a praticar mais a honestidade em nosso dia a dia para podermos atirar a primeira pedra, com gosto, e acertar em cheio um criminoso que está no poder, sem ter medo de alguém lhe apontar o dedo e dizer que seu passado é tão sujo quanto o do apedrejado. Mas, no momento, somos todos sujos e corruptos iguais àqueles que criticamos. Nossas formas de protestos estão erradas, nossa forma de aceitar o mundo está errada, e nossa maneira de reivindicar é primitiva. Estamos estagnados no mesmo ponto há 30 anos, e sequer temos coragem de tentar sair.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Saudades de mim


Despertou cedo, em pleno final de semana, e correu se arrumar para o que esperara a semana inteira.

Tomou o café da manhã com gosto, arrumou o quarto e se vestiu, pronta para se entregar àquela paixão que já possuía há quase 10 anos.

Feliz, saiu de casa cantando, aquecendo mentalmente o corpo, se preparando para a hora em que a música invadisse o ambiente, agitasse as células, os músculos de seu corpo, e espantassem quaisquer pensamentos daquela mente que nunca parava de pensar.

Por uma hora, o mundo sumiu. Resumiu-se à música, ao corpo, ao sentimento, ao movimento... Por uma hora, todo o cansaço e esforço da semana valera a pena. Por aquela hora, tudo valia a pena.

E ela dançou. Dançou e se entregou às notas, aprendeu e errou, mas viveu intensamente aquele momento, como se soubesse que um dia teria que deixá-lo passar mais uma vez.

Hoje, quando chegam os finais de semana e não tem mais esse motivo para esquecer o mundo, ela chora. Porque a saudades dói até quando temos que deixar longe aquilo que fazia nos sentirmos nós mesmos.



terça-feira, 11 de setembro de 2012

Doutor é quem tem doutorazzzZZzz...



Estou um pouco incomodada com minha, talvez, falta de valorização de minha próxima titulação, mas diante dessa onda de tanto criticar o título de doutor, que virou quase um pronome de tratamento, tenho visto que praticamente só eu não me importo em dividir esse título com alguém que não fez um doutorado propriamente dito.

Vejo pessoas esbravejando, dizendo que é um atrevimento os médicos e advogados serem chamados de doutores... Vejo pessoal divulgando alguma lei perdida nesse mundo sem leis dizendo que utilizar o título de doutor é impróprio, e fico pensando se só eu entendo o “Doutor” ao médico e ao advogado mais como um pronome de tratamento do que como um título acadêmico.

Antes de entrar na universidade, eu sustentava essa opinião de que médico algum deveria ter a audácia de se intitular “doutor”, sendo que residência médica não caracteriza doutorado. Mas aí, dentro do meio acadêmico, você descobre que pouco importa o título que você carrega se você é um péssimo profissional. Até agora, já conheci muitos doutores e PhD’s em diversas áreas muito mais cretinos do que um próprio mestre, ou do que um próprio médico ou advogado, como queiram.

Sei que muitos levantam a bandeira de suas pós-graduações como troféus que devem ficar cintilando em uma prateleira, mas esse povo esquece que quanto maior a sua especialização acadêmica, menor seu conhecimento específico em uma determinada área.  Logo, de que adianta ser doutor, PhD em biologia molecular, se você não sabe nada de ética e convivência social? Almejar esse título de doutor vale alguma coisa, realmente?

Ainda sou mestranda, talvez eu faça doutorado, talvez não, mas acho pequenez demais se prender a um título para definir sua competência profissional. Implicar com um médico, que não fez doutorado, porque ele é chamado de doutor é muita falta de confiança na própria capacidade. Não me sinto inferiorizada e nem igualada a um médico porque somos ou seremos chamados de doutores: Eles sabem mais de um assunto, eu sei de outro... E se eu o chamo de doutor, o chamo por um sinal de respeito, porque pra mim doutor sempre foi sinônimo de médico - como um pronome de tratamento mesmo - e nunca foi uma exclusividade acadêmica.

Não trato meus amigos ou professores doutores por doutores, e não me sinto desrespeitosa a eles por conta disso. Não me importo em me denominar doutora em algum lugar, porque tenho um doutorado. Esse título não vai mudar quem eu sou, e o respeito que as pessoas tem ou terão por mim não estará diretamente relacionado a três letrinhas antes do meu nome em um cartão ou em um avental.

Meu respeito por um profissional vai mundo além de um título ou de uma palavra qualquer. E para mim, tanto faz se quem eu chamo de doutor realmente fez ou não um doutorado acadêmico. A valorização do trabalho de alguém está muito, MUITO além disso.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Os brasileiros vão destruir o Brasil


Zé Carioca já ilustrava como eram os humanos que habitavam as terras tupiniquins: Folgadão, sossegadão, sem compromisso algum, aquele que, quando der, eu faço, ou deixa pra depois. E Zé Carioca é velho. – Pra você ver como a situação do Brasil é caótica desde sempre.

Às vezes penso que a “pacificidade” do brasileiro não é bondade, é burrice e preguiça de agir. Um povo que tanto se orgulha dos revolucionários contra a ditadura simplesmente se acomodou a viver como está, aceitando abertamente o jeitinho que o governo dá para as coisas, cegando-se a ponto de achar que são medidas provisórias com objetivo de melhorar a realidade um dia.

Eu acreditaria nessas medidas provisórias, se visse que alguma mudança básica está sendo feita conjuntamente para começar a nivelar um povo por cima, e almejar que, daqui a alguns anos, estejam todos no mesmo grau de inteligência e conhecimento. Mas os defensores cegos das cotas, por exemplo, não conseguem enxergar que o governo toma tais medidas absurdas como meio de tentar melhorar a visão que o mundo tem do Brasil, lá fora, do que tenta realmente melhorar a qualidade da educação no país.

Estamos cegos e acomodados com a política brasileira, que tem se mostrado cada vez mais suja e corrupta, cada vez mais sem jeito ou salvação. Ainda vivemos em uma era de coronelismo disfarçado, onde mandam os ricos, obedecem os que querem preservar a vida ou roubar em conjunto, e onde quem se f**e é a população em geral, os “Zé ninguéns” aqui do baixo escalão social.

Estamos cegos com o fanatismo fervoroso pela política, que cegou os brasileiros de tal forma que muitos só conseguem enxergar a política como uma dualidade única entre um partido que chamam direita, e um outro de esquerda, que tem de esquerda só a ideologia do papel. E esse bando de cegos, desprovidos de capacidade intelectual e de questionamento, acreditam fervorosamente que há uma diferença lógica e existente entre os dois partidos, e por isso a cor vermelha não pode se misturar ao azul e amarelo, ou são completamente diferentes.

A meu ver, essa dualidade permanente na cabeça dos brasileiros só prova que, embora a luta de nossos pais, tios e avós tenha sido árdua e tenha derrubado a ditadura, nossa mentalidade continua retrógrada e presa àquela dualidade fictícia das décadas de 1960 a 1980. Votamos achando que estamos escolhendo um candidato, mas o fanatismo nos faz enxergar um partido, e o que existe por trás dele é inquestionável.

A meu ver, estamos acomodados, vendo que tudo vai terminar em uma grande merda, mas vamos esperar acontecer pra fazer alguma coisa, porque ainda apostamos que o SE seja maior que a afirmativa. Vamos aceitar as cotas, porque vai que o governo melhore a educação brasileira. Vamos aceitar os mensalões, porque vai que seja tudo mentira e obra da oposição. Vamos aceitar a corrupção dos políticos, porque vai que eles decidam tomar alguma medida que nos ajude de alguma forma...

E nessa onda de “ah, tudo bem assim, vamos ver no que vai dar”, o brasileiro aceita discriminadamente que as autoridades se valham de títulos para sambarem em cima do dinheiro da população. Fechamos os olhos para os políticos que acham que as leis se aplicam aos outros, mas não a eles; aos policiais, que multam um cidadão pela falta do cinto de segurança, mas nunca o estão utilizando; aos governantes, que exibem o título de trabalhador pela sociedade como uma profissão, e recebem demais para trabalhar demais.

E vamos nos cegando cada vez mais, do jeitinho que desejam os mandachuva lá de cima – porque um dia, quando ninguém mais enxergar, qualquer guia vai servir. E vai que esse guia seja bom e mude o que não mudamos quando ainda era tempo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O mito da dança do ventre e a barriguinha



Eu e toda bailarina que faz dança do ventre já ouviu o típico jargão de “ai credo, dança do ventre da barriga” – o que é meio contraditório, porque a maioria dos movimentos ondulatórios exige do músculo reto abdominal (vulgo tanquinho) tanto quanto exige uma abdominal na academia – mas só sabe isso quem começa a dançar e fica com aquela dorzinha de ácido lático depois de uma aula intensa de movimentos.

No entanto, acho que esse mito de que a dança do ventre da barriga surgiu justamente porque as mulheres que “tem barriga” fazem dança do ventre. Essa dança, completamente feminina, faz a mulher entender seu corpo, redescobrir seus movimentos e enxergar como eles podem traduzir músicas e emoções com gestos capazes de exprimir uma cultura milenar.

Embora muitos vejam com maus olhos a dança do ventre, devido à sua vulgarização, somente a mulher que faz a dança começa a entender que os movimentos do quadril, dos braços, do corpo são formas de ressaltar a força feminina que existe em cada mulher. A dança permite que você viaje pelo antigo Egito, que sinta o ritual de fertilidade que ela representa... E faz com que você se perca em anos e anos de uma cultura fantástica que sempre encanta a todos.

Talvez seja essa magia da dança que encante todas as mulheres que começam a dançar. Essa magia faz com que nós nos aceitemos do jeitinho que somos... Não importam os quilinhos a mais, a barriga, o culote, o bracinho do tchauzinho. Com a dança, você se redescobre de dentro para fora, e começa a despertar aquele interior que muitas vezes está reprimido por esse complexo de beleza sarado que impera nas mulheres hoje em dia.

Não importam as celulites, nem os músculos um pouco flácidos. Não importa o pneuzinho ou a barriguinha saltada: Você se sente realizada sendo capaz de ouvir uma música e ler as notas com seu corpo. E seu corpo pode ser de qualquer jeito, porque para ser bailarina do ventre, o biotipo não é limitante para que você consiga transformar o seu eu em uma obra de arte ao dançar uma música.

Talvez aprender a gostar de você mesmo com a dança seja o suficiente para muitas se aceitarem com barriguinha mesmo, sem precisar fazer mil abdominais por dia. Talvez a barriguinha tenha vindo antes da dança, mas nós só aprendemos a não nos importar mais com ela depois de descobrir que podemos nos sentir bem mesmo com um corpo não perfeito, porque nos descobrimos mulher acima de tudo.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Máscara de ImPunidade




Quem antes se preocupava em ter a senha do banco roubada por um programa espião ou um hacker qualquer, hoje, se for famoso, tem que se preocupar muito mais com banalidades de sua vida pessoal do que com roubos diretos.

Não são somente artistas internacionais os (no caso, as, porque mulheres são mais visadas que homens) que sofrem com essa onda de roubo cibernético. Todos viram e ainda veem, graças à propaganda da mídia, que uma atriz brasileira tem sido refém da idiotice alheia.

De rumores que partiram de possível acesso a conteúdo privado em uma assistência técnica à real veracidade dos fatos, a maior propaganda de que fotos pessoais da atriz caíram na internet foi da própria mídia, que as usa anuviadas e desfocadas como background da notícia irrelevante.

Ações judiciais premeditadas tentaram culpar o único que não tem culpa nisso tudo: O maior site de buscas da internet, que saiu como vilão da história, para a alegria da Microsoft.

Hoje, no entanto, ter fotos e dados pessoais armazenados em email ou estantes virtuais é um perigo se você é inocente e novo na internet. Enquanto crescemos sabendo diferenciar spam de email, links maliciosos de confiáveis, há ainda quem caia nas armadilhas antiquadas colocadas aqui e acolá no mundinho virtual. E foi assim que as fotos da atriz brasileira viraram assunto nacional nas últimas semanas.

Felizmente, ela é uma moça bonita. Infelizmente, quem praticou o crime não tem respeito nenhum ao próximo e espalhou as fotos pelo mundo, em sites pornográficos e, ainda por cima, derrubou um site federal e divulgou as fotos da atriz na página inicial. Futilidade ao extremo, nesse Brasil.

No país da ignorância, os criminosos virtuais se revoltam quando comparsas são presos e se acham no direito de expor a vida de alguém como prova de soberania. Pegaram uma moça pra cristo, e sequer pararam pra pensar em como ela se sente com tudo isso – porque quem pratica crime assim não se importa com outra coisa além do ego.

A impunidade irá reinar novamente. Sempre reina, no Brasil. Os ataques serão multilaterais, e só vão parar quando a importância para o caso diminuir – mas a mídia alimenta a cada dia a fogueira Dieckman.

Enquanto a moça angustia, estúpidos, ignorantes e criminosos estão aí à solta, quebrando senhas, roubando códigos, armazenando arquivos de muitos outros do Brasil e do mundo.

As leis não valem nada na internet.

sábado, 28 de abril de 2012

Uma breve explicação: Experimentação Animal


**ATENÇÃO! Há algumas imagens fortes nessa postagem.**


Há tempos venho tentando encontrar um texto que explicasse isso para evitar a fadiga, e não o encontrei. Senti-me na obrigação de fazer um, tentando explicar sucintamente meu ponto de vista como cientista, que optou por não trabalhar com animais, mas entende e respeita a ciência que o faz.



Esses movimentos contra experimentação animal me deixam indignada pela ignorância que o apoia. E aqui chamo de ignorância a pura falta de conhecimento sobre como e porque de se fazer experimento com animais.

Uma breve introdução à farmacologia
Não é obrigação de quem nunca cursou um curso de farmacologia saber a complexidade da ação de um produto no organismo. Poucos, aliás, sequer sabem que o organismo absorve o que cai na sua pele e metaboliza isso, então tento relevar muita baboseira que vejo, antes de escrever um texto. Logo, já relevei demais.

Todos os produtos que ingerimos são metabolizados: Tudo cai na corrente sanguínea, uma hora ou outra (seja injetado, ingerido, besuntado na pele), e segue para o fígado, onde é metabolizado como uma forma do organismo inativar aquela molécula e excretar, livrando seu corpo o mais rápido possível da ação daquele produto estranho. No entanto, existem moléculas que precisam ser metabolizadas uma, duas, várias vezes até serem inativadas e eliminadas. Essa repetição de inativações não ocorre repetidamente: O fígado tenta inativar a molécula, ela continua ativa, cai na corrente sanguínea de novo, percorre o organismo, volta para o fígado... E assim permanece até que haja sucesso na depuração do produto.

Qualquer remédio que você consumir, vai ser assim. O que você aplicar à sua pele vai ser assim. O anabolizante, hormônio ou medicamento que você injetar vai ser assim.

E tudo seria lindo se a metabolização fosse perfeita e fosse diminuindo o efeito das drogas. Mas não é. E tem vezes que o fígado tenta inativar uma molécula, mas acaba gerando um metabólito secundário extremamente tóxico para o organismo, que pode até levar à morte.

Logo, antes que qualquer produto seja liberado para consumo humano, é preciso fazer ZILHÕES de testes para prever que não vá ser tóxico e que não vá matar alguém. E eu digo PREVER porque, embora sejamos (humanos e animais de laboratório) todos mamíferos, nem todos os organismos metabolizam produtos da mesma forma (as variações enzimáticas entre as espécies são grandes), e o teste em animais de diferentes espécies é a maneira que a farmacologia usa para tentar minimizar os efeitos graves quando os produtos chegam a testes clínicos (com humanos).

***

Nós, pesquisadores, trabalhamos com animais não porque gostamos ou porque menosprezamos os bichinhos. Simplesmente não há como gerar organismos similares a humanos, que façam todas as metabolizações de droga que os órgãos humanos fariam (órgãos porque, embora o fígado seja o grande mestre, muitos outros participam dessa alteração metabólica), para trocar o sistema de experimentação de produtos. Se esse organismo fosse gerado, aposto que muito mais órgãos cairiam de pau em cima questionando a ética e viabilidade de uma “máquina humana”, do que os comitês de ética caem em cima quando você sugere um número absurdo de animais para fazer um teste.

Biotério climatizado. 
Há sim comitês de éticas que avaliam o uso de animais em pesquisa. Mas nenhum tapado compõe a banca, tentando inviabilizar um projeto com a desculpa de especismo. Esses comitês avaliam não somente se é necessário o uso de animais, como também estudam como é a proposta de tratamento desses animais. Os animais experimentais ficam em ambientes controlados, tem alimentação controlada e adequada, e hoje tem-se evitado ao máximo sacrifícios que possam levar o animal a um sofrimento contínuo.

Circulam pela internet fotos de animais em estado depreciativo, com títulos de que esse puro sofrimento é experimentação animal, dando uma ideia de que só porque os animais chegaram àquele estado, eles foram mal cuidados e desprezados pelos pesquisadores.
Pesquisas com animais de médio e grande porte são
extremamente controladas e só são permitidas em casos
excepcionais. Essa foto é puro SENSACIONALISMO.

Não caiam nessas bobagens. Embora a experimentação possa sim machucar os animais, os testes são feitos justamente para ver se o produto em teste não prejudicaria o ser humano. As indústrias de cosméticos vivem em uma batalha fervorosa para lançar produtos novos no mercado, que fazem milagres na pele e cabelos; indústrias farmacêuticas testam drogas porque se uma substância tem um potencial alvo como fármaco, só por sua molécula é impossível (talvez possamos dizer ainda) saber como será sua metabolização se não inseri-la em organismos vivos.

Sem os animais, hoje não teríamos antibióticos, anti-inflamatórios, antipiréticos, ansiolíticos, hormônios, quimioterápicos. Não teríamos cremes, unções, géis, pastas. Xampus, sabonetes, hidratantes... Teríamos venda indiscriminada de ervas tóxicas que são ditas curativas, e a venda de produtos contaminantes e contaminados... Enfim! Hoje não teríamos um mercado capaz de prover uma boa qualidade de vida se não fossem os animais de laboratório, que morreram para que você não morresse.

Esteróides também são experimentados em
animais
. Parece tão cruel pra você?

Há extremistas hoje chamando essa diferenciação animal de “especismo”. Sou cuidadosa e prefiro não confundir as coisas antes de levantar uma bandeira. A experimentação humana foi feita, sim, há décadas, com pobres, negros e marginalizados. É antiética, amoral e depreciativa (leiam o livro “A Vida Imortal de Henrietta Lacks” para entender um pouco, ou assistam ao filme “Quase Deuses”). É proibido que haja testes iniciais em humanos, justamente pela falta de conhecimento dos riscos que um produto desconhecido pode trazer à vida de alguém. Não há como tentar progresso na saúde humana se não usarmos outros meios para tentar curar o câncer, infecções, diabetes... Não é possível tentar evitar infartos, AVC’s ou doenças autoimunes se você não testar drogas em bichinhos, antes de ministrá-las a um ser humano.

Experimentação humana, retratada tanto na obra literária "A vida Imortal de Henrietta Lacks", 
quanto no filme "Quase Deuses". Quem sofriam eram os negros e pobres. É mais digno que matar um ratinho? 

Portanto, antes de criticar, pense na sua avozinha que sofre de hipertensão, no seu tio que teve câncer, na sua pílula que não te deixa engravidar, no seu remédio para labirintite, queda de cabelo, ansiedade. Lembre-se da pomada que você usa, do “gelol” que você passa, do desodorante que te mantem cheirosinho o dia todo. E lembre-se que sem os animaizinhos de laboratório, você não teria nada disso ao seu alcance. Lembre-se do amianto que você não respira mais, do mercúrio que não está mais contaminando a sua água, do césio que tira seu raio-X. E lembre-se que graças aos bichinhos, você não é um tumorzinho ambulante.

Antes de criticar a experimentação animal, viva-a. Entenda como é a rotina de laboratório de quem precisa dos animais para pesquisar. Estude farmacologia, entenda como tudo que entra no organismo age, como se acumula na sua gordura, ou como é eliminado. ENTENDA. Antes de criticar, estude. E se for criticar, sugira, com propriedade, uma nova forma de experimentação, mas não tente barrar uma pesquisa que pode te curar de um câncer daqui 10 anos. Mas não recrimine quem usa animais para estudo, se você leu esse texto todo com sangue nos olhos, discordando já desde a primeira palavra, e se bloqueou a entender qualquer explicação que eu tentei dar só porque, durante o texto, inseri meu ponto de vista. Não cheguemos, mais uma vez, à fadiga de uma discussão.