terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Porque sim não é resposta!

Acho que toda criança que cresceu na mesma época que eu assistia ao “Castelo Rá-Tim-Bum”, já que o “Rá-Tim-Bum” só reprisava os episódios.

Devo confessar que apesar da abertura fantástica do “Castelo...”, nada nunca me surpreendeu mais do que aquela engenhoca arcaica que iniciava o antigo “Rá-Tim-Bum”. Eu adorava a fuça daquele rato fazendo “tóin-tóin” quando ele saía da toca – aliás, eu gostava de tudo: Daquela bexiga que segurava uma bola de boliche, do trenzinho passeando, do macaco comendo a banana... Mas eu nasci numa época em que esse seriado estava com os dias contados e seria substituído por uma história com bruxas, “raios e trovões! – CABRUM”.

Tá. Eu adorava aquela cobra cor-de-rosa metida e exibida que era a Celeste, adorava os irmãos gêmeos “Tíbio e Perônio” e cheguei até a comprar um livro deles que tinha um esqueleto humano com o nome de todos os ossos do corpo. Adorava o Bongô, não suportava a Caipora, e adorava a roupa do Etevaldo. Ansiava pelas partes extras do ratinho azul, e principalmente do “Viu como se faz?”, e sentia raiva do doutor Abobrinha!

Mas dentre tudo o que o Castelo Rá-Tim-Bum me ensinou em minha infância, uma das coisas que mais me lembro era do coitado do Zequinha curioso, que queria saber tudo e ninguém explicava nada. Por quê? Por quê? Por quê? – Porque sim, Zequinha! Tudo bem, o pirralho irritava, mas coitado, por que não respondiam direito?

Como ninguém se habilitava a responder, sempre aparecia aquele professor Tibúrcio reestruturado, vestido bizarramente como um ciclista em dia de parada gay, dizendo: “Porque sim não é resposta!” E pegava aquele controle remoto gigantesco tijolão para começar a caçar as explicações.

Enfim... Uma das coisas que eu aprendi com Castelo Rá-Tim-Bum foi questionar até obter uma explicação plausível. Lembro que um dia eu brincava com minhas primas na casa da minha avó, e era hora do lanchinho da tarde. Eu queria comer só o peito de peru, não queria comer o pão – eu adorava comer só os frios naquela época, mas minha avó não deixou, dizendo que faria mal. Eu, inocente, mas curiosa, perguntei o porquê, e ela me respondeu “porque sim”. Pronto. Era o prato cheio. A resposta sempre esteve na ponta da língua para toda criança que passou a infância vendo aquele castelo, todos os dias, às 18h. Eu prontamente respondi à minha avó: “Porque sim não é resposta!”

Resposta errada. Não tinha ninguém com um controle remoto quando eu falei essa resposta, não tinha nenhuma imagem de fundo tentando achar lógica pra minha avó não me deixar comer o peito de peru... Tinha somente minha avó, com uma cara assustadora, olhando pra mim, os olhos fumegando e a boca torcida. Quase dava para ver as fumacinhas saindo da narina, mas ela não fez nada comigo. Minto. Ficou fazendo cena e não dirigindo a palavra a mim até minha mãe chegar. Quando mamis chegou, ela simplesmente contou tudo para minha mãe, como se eu fosse a criança mais mal-educada do mundo. Óbvio, minha mãe queria se esconder de vergonha, e quando veio me perguntar por que eu havia respondido aquilo, eu prontamente acusei o programa da TV cultura: “Ué, no Castelo Rá-Tim-Bum é assim. Sim e não nunca são respostas, e eu queria saber o porquê”.

Minha mãe ficou quieta, refletindo, eu acho. Até certo ponto, eu tinha razão. Havia aprendido com um programa de TV cujo objetivo era ensinar crianças. Não me criticou, nem me puniu, só me disse para nunca mais dizer “porque sim/não não é resposta”.

Descobri então que nem tudo o que eu via naquele seriado era para ser feito. Fiquei decepcionada.

Mas hoje, quando vejo algum episódio de Castelo Rá-Tim-Bum, sinto saudades daquela época, e não me arrependo de ter dado aquela resposta à minha avó. Qualquer que fosse a mentira que ela inventasse para me convencer de que eu não poderia comer peito de peru sem pão, seria melhor do que simplesmente me negar uma explicação.

Vai saber se esse senso crítico que brotou em mim não me fez querer ser cientista? Talvez uma Tíbia, quem sabe.

2 comentários:

  1. Não é bem questão de "não ser feito"; para tudo existe a maneira de falar e a quem perguntar. Sempre que alguém me empurrava um "porque sim", eu corria pra minha mãe, pra perguntar. Ela sempre tinha uma explicação coerente para a minha pouca idade. rs

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  2. Parabéns!!! adorei!!! a grande verdade é que não podemos ficar calados e achando que a maioria tem a razão!!! como diria Beto Guedes " Vamos precisar de todo mundo pra banir do mundo a Opressão!" são essas atitudes que nos fazem crescer, eu vivi essa época também e vejo o quanto foi importante para mim, buscar as respostas por mais dificies ou incomodas para as outras pessoas! Bjs Helo!

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