terça-feira, 25 de agosto de 2009

O ladrão de Chocolates


Era um almoço solitário. Eu havia ido ao restaurante sozinha, e não há nada mais triste do que almoçar sozinha – a gente pensa em tudo e nada ao mesmo tempo, gasta tempo demais pensando em baboseiras enquanto enfia garfadas de comida guela abaixo, até limpar todo o prato que antes estava cheio de cores.

Comi. Bebi meu suco. Paguei minha conta, e como sobremesa, me dei um bombom “Alpino”, daqueles bem pequenos, mas gordinhos e macios, com o sabor único que o chocolate pode ter.

Estava prestes a deixar o restaurante, com meu bombom em mãos, quando avisto um grupo de amigos almoçando em um outro canto do local. Fui convidada a me juntar a eles, e me juntei. Alguns já haviam acabado de comer, outros estavam nos momentos finais...

Conversa vai, conversa vem, o papo deu uma trégua e eu me lembrei do bombom que ainda segurava. Feliz, descasquei aquela embalagem dourada com cuidado, como se de dentro dela fosse sair um bombom de ouro. Retirei o papel, e com todo cuidado de quem deseja degustar com calma e paz um bom chocolate, dei uma sutil mordidinha no bombom – bem pequena mesmo, porque não há motivos para devorar algo tão pequeno em tão poucos segundos se há como saborear aos poucos e atrasar o final inevitável.

Por educação (que às vezes eu juro que não sei porque tenho), ofereci um pedaço à turma. A turma era bem maior do que restava do meu bombom, mesmo se todos mordiscassem o chocolate como eu havia feito – mas mamãe me ensinou a sempre compartilhar as coisas, e eu – criança inocente – acreditei que assim deveria fazer.

Como toda pessoa sensata, cada um que eu olhava, recusava gentilmente um pedaço do meu bombom, sorrindo – talvez pela graça da situação mesmo. Quem oferece um pedaço de alpino? Eis que quando ofereço meu pequenino bombom ao último da mesa, ele aceita um pedaço. Quando ele aceitou, eu, gentilmente, cedi meu bombom a ele. Ele abriu a boca com gosto, como se lá coubesse a fábrica inteira da “Nestlé” naquele momento, e atacou vorazmente o meu chocolate. Dilacerou mais da metade do bombom, fez cara de “huuuum, que delícia – Veja, estou saboreando cada micrograma do seu chocolate”, e continuou segurando o bombom. Eu continuei olhando, abalada demais para dizer alguma coisa, esperando que ele gentilmente me retornasse o que havia restado do meu finado bombonzinho, mas ele continuou lá, enforcando meu chocolate, enquando suas mãos começavam a ficar marrons pelo bombom derretendo. De repente, em um ataque mais do que rápido, ele enfiou todo o pouco resto do meu alpino na boca, e saboreou... Lambeu os dedos, um a um, como uma dama faria para provocar um homem louco de desejo.

Minha fúria, nesse momento, transpareceu. Consegui conter minha língua, mas meus olhos fuzilantes metralharam aquele assassino de bombons. Olhei indignada a cada um dos que estava na mesa, e todos estavam tão pasmos quanto eu, tentando entender a audácia do indivíduo que ainda mastigava os últimos restos do meu delicioso bombom. Meus olhos encontraram os olhos de cada um que presenciara aquela cena, e conversamos por olhar durante aqueles segundos de silêncio.

“COMO ELE TEVE CORAGEM DE COMER O MEU ALPINO???”

Meus amigos ficaram com dó de mim. Acho que eles haviam percebido o quanto eu estava me deliciando com aquele momento que deveria ter sido só meu – o de comer o chocolate como a melhor sobremesa do mundo. Quiseram me comprar chocolates para compensar minha perda.

Mas nada no mundo substitui algo que a gente perde sem ao menos esperar...

Eu perdi o meu alpino.

5 comentários:

  1. HAHAHAHA, eu rio só de lembrar XD
    Eu teria dito algo, juro. Mas fiquei tão sem ação, foi completamente inesperado aquilo pra mim (não só pra mim, né).

    Ah... perdeu um alpino, mas ganhou uma história boa ;P

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  2. Tem que rir das desgraças para não chorar... A história é cômica, de tão trágica (sim, coitado do meu alpino... Tenho CERTEZA de que meu organismo teria feito melhor povfeito dele...)

    auhauhauhhaua

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  3. Da próxima vez, come depois. ;) Gente sem noção tem em todo lugar.

    E eu juro que teria dito alguma coisa também, provavelmente antes de ele terminar de comer. Nem que fosse um comentário sarcástico que a pessoa não entendesse, só para liberar minha raiva.

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  4. Fiquei completamente sem ação. Juro. hahaha

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  5. HAHAHAHAHAA QUE HISTÓRIA TRÁGICA E AO MESMO TEMPO ENGRAÇADA FIQUEI COM DÓ DE VOCÊ HELO! HAHAHAHAHA NESSAS HORAS VOCÊ TEM QUE LEMBRAR DAQUELA COMUNIDADE " MANCADA É PEDIR GOLE DE YAKULT"!

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