terça-feira, 31 de agosto de 2010

Desabafos de uma celíaca (Parte 03)



Não vale fazer desabafos celíacos só para falar das desgraças que acontecem comigo, não é?

Depois do meu pequeno surto no desabafo passado, devo confessar que estou bem. Podem comer coxinhas à vontade perto de mim, que eu não arrancarei meus cabelos.

Com o tempo, vem a aceitação, e com a aceitação, vem a calmaria. É mais fácil conviver com a doença quando se sabe que ela é “eterna”.

Outro dia não resisti e comi uma coxinha de aniversário. Uma só... Sei que não deveria, porque agora que minha mucosa intestinal fofinha está se recuperando, eu fui lá e comi o glúten, e ela deve ter entrado em crise existencial de novo... Mas se entrou, não ficou muito tempo em depressão, porque não senti nenhum desconforto.

Comer fora de casa, agora, é situação de risco - 8 graus na escala Richter - então não como. Quando não há saída, fico no churrasco e nas carnes churrasqueadas, e só.

Infelizmente, as pessoas ainda ficam constrangidas quando se esquecem que não posso comer glúten e são gentis. Eu agradeço e não aceito o que elas me oferecem, mas elas perdem o fio da meada e ficam sem graça. Eu já encaro com naturalidade. As pessoas não são obrigadas a se lembrar sempre que eu não sou normal (ou não levo uma vida alimentícia normal, que seja).

Minha mãe já cogitou a possibilidade de abolir a farinha de trigo de casa e usar só a farinha sem glúten, mas o preço é alto demais, e eu não moro mais com eles pra uma mudança tão radical. Mas adorei saber que ela pensou nessa possibilidade. Quando se tem uma doença cruel como a minha, a aceitação pessoal só se fortalece quando você sabe que as pessoas que vivem com você entendem e aceitam a sua condição.

Minha avó pensa em tudo o vai fazer quando vou almoçar na casa dela. São raras as vezes, mas ela, assim como todos próximos de mim, analisa todas as embalagens e procura a notificação do “Contém Glúten”.

Minha amiga usou dois passadores para passar maionese no pão, só para não colocar no pote de maionese o mesmo que tinha entrado em contato com o pão.

É... São os pequenos gestos que ajudam a gente a seguir em frente. Além de aceitar a doença, sou feliz. Faço piada da minha desgraça, reclamo que não posso comer isso ou aquilo, mas com um tom de ironia.

Só agradeço a meus pais, por abrirem mão de algumas coisas para que eu possa viver com a minha dieta, que, sozinha, é quase tão cara quanto uma compra de supermercado.
 
É, a gente aprende a ser celíaca.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Minha vida é um musical

 
 
Há algum tempinho li uma crítica que a cantora Miley Cyrus fez em relação aos musicais. Não sei se todas as palavras ali transcritas eram literalmente o que ela dissera ou não, porque vocês sabem como é: Mídia SEMPRE distorce as coisas. De qualquer forma, li a declaração em dois locais diferentes, o que me fez acreditar que havia um pingo de verdade no que a menina dissera.

A ex-personagem Hanna Montana (um seriado musical, veja a ironia) declarou que não gostava de musicais porque eles não retratavam a vida real, já que ninguém saía cantando pelas ruas ou para alguém quando estava triste ou feliz. Fiquei desapontada. Como uma CANTORA pode sequer dizer isso?!

Eu, simplesmente uma eterna apaixonada por música, não saio cantando para qualquer um, mas se eu pudesse escrever a minha vida em música, eu escreveria. Se você pudesse ler minha mente, ouviria, de hora em hora, alguma música diferente. Cada momento que vivo, penso em músicas que poderiam traduzi-lo. Pode ser algo tão banal como fazer uma besteira e começar a pensar em “Oops! I did it again...”, quanto um sentimento mais profundo de tristeza em que cantaria para mim mesma “Learn to be lonely”.

Musicais não contam só a vida real. Contam história da maneira mais emocionante e forte que se pode contar: Com música. Se musicais são “besteira” por serem a mais pura mentira, livros são o quê? Musicais são livros traduzidos em música, em notas, em escalas musicais... Em harmonia.

Não existe uma obra mais completa e bela do que um musical. Não existe obra mais bela do que um musical. A emoção de estar na platéia, ouvindo uma orquestra tocar ao vivo notas que estremecem a alma, uma soprano gritar uma nota em uma escala que você sequer pensou que a voz humana seria capaz de  alcançar, um tenor colocando a força dos pulmões no clímax da música... Não há palavras que consigam traduzir a emoção que se espalha pelo corpo.

Eu posso não ser uma soprano que estremece um teatro quando canta em cima de um palco, mas eu sempre estou cantando para mim mesma uma música que aquece o meu coração.

A minha vida é um musical. Ele se chama Heloísa, mas não é um musical de sucesso em teatros. É um musical em que só eu sei as falas, as músicas, os tons e os arranjos.

Sou a soprano da minha própria história. E a minha história é real. O meu musical é real, e vai continuar até o último compasso da minha ópera.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Tempo*


As músicas não paravam de tocar. Todas as músicas faziam com que ela se encolhesse na cama e chorasse cada vez mais. Todas eram tristes, calmas e falavam daquilo que ela não queria ouvir: Saudade.

As lágrimas já haviam escurecido a fronha do travesseiro e os olhos já estavam inchados e vermelhos – No dia seguinte, todos saberiam que ela passara a noite aos prantos.

As notas das músicas continuavam a pular da caixa de som e invadir o quarto, dançando pelo ar e dilacerando o coração da pobre menina.

Ela suspirou fundo, limpou os olhos, encharcou as mãos de lágrimas e ouviu: Não, essa música não falava de saudade, falava da realidade.

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Assim como a dor que fere o peito, 
isto vai passar também. 
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Mas ouvir música a fazia se lembrar dele. Ela ouvia músicas com ele.

E doía.

*Tempo é o nome de uma música do novo álbum - Manuscrito - da cantora Sandy, assim como o verso que inspirou o texto.

sábado, 14 de agosto de 2010

Sexta-feira 13

O dia amanhecera escuro. As nuvens no céu formavam uma cortina densa que impedia o sol de brilhar. O vento, balançando as árvores, tornava o ar denso e gelado. Só uma louca como eu para sair de casa em um dia como esse.

Não havia ninguém nas ruas. Tudo estava deserto, como naqueles pesadelos que a gente tem nas primeiras horas da manhã, quando a madrugada desiste de reinar. Aqueles pesadelos em que você está perdido em algum lugar, no escuro, e não há mais ninguém além de você e aquela outra pessoa de quem você está fugindo. Medo.

Os pássaros não cantavam, nem os cachorros latiam. Estava sozinha no mundo. Comecei a sentir calafrios – medo, aflorando à pele. Não havia mais ninguém, mas eu sentia vontade de correr, como se todos os olhos ali me vigiassem, como se logo algo puxasse minhas pernas, e ninguém fosse me socorrer enquanto eu gritasse como louca.

Acelerei os passos, com os braços cruzados no peito – instinto, proteção. Ainda estava longe, e o dia estava escuro como a noite, piorando.

Um uivo.

Um grunhido.

Gritos. Meus gritos, escapando da garganta, em meio ao pânico e medo que me cercavam. Meus passos gritavam pela rua, anunciando minha corrida desvairada em direção a lugar nenhum. Eu perdera o rumo quando algo uivou, caíra quando algo grunhiu... Agora desembestara em frente, sem saber aonde ir.

Uma névoa descera do ar. Tudo estava branco, gelado e turvo. Não se via a luz, nem o chão. É inútil fugir quando não se sabe para onde está indo, mas eu corria desesperadamente.

Uma sombra me parou. À minha frente, um contorno escuro de um homem (ou seria mulher?) me aguardava, à espera de meu encontro. Meus pés fincaram no chão e o ar fugiu dos pulmões. Podia sentir meu corpo estremecendo de medo, minhas pupilas dilatadas e alertas. Minha pele sentia qualquer leve movimento do ar. Eu chamaria a sensação de agonia pura.

A sombra começou a crescer. Vinha em minha direção. Eu não sabia para onde ir, não sabia de onde viera. Gritei, gritei com toda a força que pude, joguei todo o ar do meu pulmão para fora, fiz tremer todos os músculos do corpo com a força da voz, mas eu estava só, e ele estava perto. Perto demais, que agora eu sabia que era um homem, alto e forte. Seus olhos surgiram na escuridão: Eram verdes, mas suas pálpebras estavam vermelhas, sedentas. A face não mostrava medo ou agonia como a minha. Os olhos semicerrados fixavam-se em mim. Nos lábios, nenhum sorriso, somente uma linha tênue.

Era tarde demais. Ele me agarrou pelos braços, olhou fundo em meus olhos. Meu desespero não me deixou resistir. Ele me virou de costas pra ele, puxando meus cabelos para trás e expondo meu pescoço. Enquanto eu soluçava de medo, ele traçava com o faro uma linha da minha nuca até a clavícula.

Tirou um punhal do bolso.

E já era tarde demais.

domingo, 8 de agosto de 2010

Porque amo meu pai...

Hoje é o dia em que todos presenteiam os pais, de sangue ou de coração, como forma de agradecer tudo o que fizeram por eles.

Para meu pai, só tenho a agradecer.


Meu pai me ensinou a sempre ser honesta, e nunca querer tirar vantagem das situações, como ele sempre agiu,

Meu pai sempre me ensinou a ser sincera e paciente, porque só com muito esforço e perseverança é que nascem os frutos do que plantamos,

Meu pai me ensinou que roubar é errado, e que sempre é possível viver muito bem com pouco. Até nos momentos mais difíceis, sempre me ensinou como nunca deixar de viver bem somente com o essencial.
Meu pai nunca foi ganancioso, e sempre soube dar o passo conforme as pernas, e eu agradeço por ele ter me ensinado a ser assim.

Foi ele que me disse não quando não podia, e me ensinou que tudo na vida tem limites, e que nem sempre podemos ter tudo o que queremos. Melhor ainda, me ensinou que não precisamos ter tudo o que queremos para sermos felizes.


Hoje eu me considero justa, sincera, honesta, crítica e às vezes até metódica, e acho que tudo isso é positivo, sim. Sei que sou assim pela educação que meus pais me deram, mas posso afirmar que não seria assim se não tivesse presenciado, durante minha vida, meu pai praticar tudo o que me ensinou.


Obrigada, pai, por me ensinar a ser gente grande.


Obrigada por ser uma grande pessoa.




quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Política, pra que te quero?

Chegam os anos pares, e começam as palhaçadas pelas cidades: Pessoal fazendo propaganda política, entregando papelzinho (e sujando as ruas), carros com autofalantes tocando “jingles” irritantes com rimas piores ainda... Uma onda de hipocrisia que não tem tamanho.

Ontem à tarde, vendo o jornal regional aqui da região centro-oeste paulista, deparo-me com os candidatos ao governo do estado fazendo a política “Panis et circenses” pelas cidades de São Paulo, mostrando que são pessoas felizes que só sabem sorrir, além de fingir que vivem como a população normal do país... Foram aos mercadões, comeram pastéis, pão com mortadela... Se bobear, esses políticos comem até churrasquinho grego, dizem que é uma delícia, e sorriem, como se pudessem dizer: “Sou do povo como vocês, como como vocês, vivo como vocês”.

Hipocrisia. Se eu pudesse definir política, faria com apenas uma palavra: Hipocrisia.

Eu odeio política, pra ser sincera. Qualquer tipo: Seja em âmbito nacional, estadual, regional ou estudantil. Não gosto porque não acredito na idoneidade de nenhum dos candidatos; Não gosto porque existe um político em um milhão deles que não vai ser imparcial a tomar alguma decisão. As pessoas, hoje, não sabem fazer política democrática: Manipulam a mente dos eleitores, transformam suas idéias em um mar de rosas, ocultando os lados podres da questão, para que todos pensem que aquela é, se não a única, a melhor solução para os problemas.

O ser humano é corruptível. Poucos são aqueles com caráter, capazes de negar suborno ou chantagens.

O ser humano tem coragem de roubar milhões, matar milhões, fazer todos os tipos de atrocidades físicas ou psicológicas, mas poucos são os que tem coragem de admitir os erros que cometem. Poucos tem caráter para afirmar que roubaram, mataram, extorquiram.

Perdi a fé nos homens, e a política é feita pelos homens. Perdi a fé na política.