segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O ladrão de pão de queijo



Há tempos havia chegado um novo rapaz ali no serviço. Pinta de nerdinho, cara de cearense, simpatia de francês. Era daqueles que não falava com ninguém e você nunca sabia se era por timidez ou arrogância; Era daqueles que te encaravam até você sorrir e falar oi, para depois ele virar a cara e te deixar com cara de merda, sem falar sequer um “oi” de volta. Depois de um tempo, pressupus que era arrogância demais para alguém tímido demais.

Ignorar era a melhor solução, e eu fazia isso todos os dias, quando passava em frente à sala do rapaz, quando ia tomar café e o via ali na mesa, quando trombava com ele no corredor e ele virava a cara. Existem pessoas que vivem em bolhas, e eu não estava a fim de mostrar para aquele ser que a bolha dele não era a única do mundo.

Em uma certa manhã preguiçosa e fria, meu estômago pedia por comida e eu sonhava com um pão de queijo. Sem pensar duas vezes, comprei dois pãezinhos quentinhos e no ponto ideal, peguei um cafezinho e me sentei para degustar aquela maravilha de queijo que tinha em mãos. Como estava com MUITA fome, comprei logo dois, porque um não daria nem pra forrar o estômago.

Enquanto me deliciava com o primeiro pão quentinho em minha mão, o chefe passou por mim e por minhas amigas, que comiam cada uma um pão de queijo e tomavam café. Educadamente, perguntei se ele queria pão de queijo, mas como ele vive engajado em dietas naturebas, recusou – para minha sorte. Continuamos, felizes, comendo o pão quentinho e tomando nossos cafés.

Estava quase terminando meu primeiro pão de queijo, quando, de repente, aparece o serzinho estranho (o “simpático”), com cara de maroto e um sorriso que agora vejo que me pareceu sarcástico (típico trollface), falando comigo pela primeira vez perguntando feliz: “Tem pão de queijo???”

Dava para sentir a tensão no ar. Enquanto eu havia oferecido o pão de queijo para o chefe por pura educação (o pão era meu e eu não estava a fim de compartilhar!), um radarzinho ambulante que nunca deu atenção a ninguém ouviu a oferta e veio correndo com sede ao pote, buscar minha comida.

Eu, que estava quase enfiando a mão no saquinho para comer meu segundo pão de queijo daquela manhã, engoli a raiva e o momento estranho que ficou no ar. Nem cogitei olhar para minhas amigas que ali estavam. De rabo de olho, vi que uma comia o resto do seu pão de queijo para não rir, e a outra mexia o café, concentrada naquela tarefa como se aquilo exigisse o máximo de concentração possível. Gentilmente ofereci meu pão ao próximo: “Tem mais um, você quer?”

O mister simpatia percebeu o impasse e hesitou por um momento, mas bicho cara de pau não recusa comida, e bastou eu insistir mais um pouco para ele pegar o MEU pão de queijo e sair para comer. Entre ele sumir de vista e podermos falar, eu podia enxergar as lágrimas correndo dos olhos das meninas, de tanto esforço que elas faziam para não desabar em gargalhadas naquele momento. Eu, ainda atordoada pela audácia do indivíduo, não sabia se ria da cara do moço quando ele percebeu o fora que tinha dado, ou se chorava porque meu café da manhã tinha sido reduzido pela metade.


Nessas horas a gente aprende que ser altruísta é uma grande merda. Esperar que as pessoas tenham bom senso é a maior falácia do mundo. Elas não tem. E elas vão comer o seu pão de queijo sem dó. Nem piedade.