quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Porque eu não me chamo de feminista:



Minhas linhas do tempo das redes sociais tem pipocado textos sobre feminismo x machismo de uma forma além do normal. Li praticamente todos, e achei interessante mostrar o ponto de vista de uma mulher que não se sente inferiorizada na sociedade devido ao "machismo nosso de cada dia". Vou ressaltar que minhas opiniões são somente minhas, e que não discordo dos grandes textos que tem sido publicados, tentando explicar os sentimentos de uma mulher para homens, chamando o machismo de dor desconhecida. Não discordo - os problemas são reais, mas não me sinto representada por essa imagem de mulher reprimida e oprimida que criaram da mulher moderna.

Nunca em minha vida meus pais ou minha família me repreenderam quando eu quis brincar com os brinquedos do meu irmão. Eu amava minhas bonecas, e (coitada) brincava de professorinha, e não só de casinha. Quando eu brincava de casinha, era porque eu podia fazer sujeira e comidinhas de terra. Nunca enxerguei isso como obrigação da sociedade em eu ter que brincar de casinha para virar uma boa dona de casa. Eu gostava de cozinhar terra e hoje gosto de cozinhar tudo - e não enxergo isso como uma obrigação. É um prazer meu.

Brinquei muito com os carrinhos e com o lego do meu irmão. Chutei bola e era a goleira dele (porque irmão mais novo sempre se ferra - e não, eu não era goleira porque era mulher. Acho que era onde meu irmão podia me colocar pra eu não ficar enchendo o saco dele enquanto ele chutava bola). Brinquei muito de ping-pong com ele. Joguei futebol de mesa (aqueles que as pernas dos bonequinhos eram alavancas pra chutar a bola), corri, caí, me sujei muito e quebrei e me ensanguentei, como um menino, durante a minha infância. Meus pais? Nunca me reprimiram por eu ter um lado moleque. Nunca.

Quando cresci, nunca fui reprimida em casa por usar roupas curtas. Nunca deixei de usar alcinhas e shortinhos. E se mexiam comigo na rua, eu sempre tinha uma boa resposta. Fui mal-criada às vezes, respondona sempre e nunca deixei que me inferiorizassem por qualquer motivo que fosse.

Nunca fui pressionada na minha vida para casar virgem. Quando era pré-adolescente ainda e comecei a ter conversas sobre sexo com a minha mãe, lembro de um dia ela me dizer que virgindade era a coisa mais idiota que existia. Quando eu ainda era pirralha e tapada da vida, e comentei que queria casar virgem (hahahaha), ela me disse que não fizesse isso, porque sexo não era nada demais e perder a porcaria de um hímen não ia mudar nada na minha personalidade. Realmente, não mudou.

Quando comecei a estagiar, nunca fui inferiorizada por ser mulher. Nunca duvidaram da minha capacidade porque eu era mulher. Ainda sou pesquisadora, e as agências de fomento não fazem distinção de sexo para conceder bolsa de pesquisa. Eu ganho o mesmo que qualquer doutorando financiado pela mesma agência que eu ganha. Meu projeto de pesquisa não foi aceito porque eu sou homem ou mulher, meu histórico escolar não teve influência disso também. 

Não vivo em função da beleza. Se quero fazer as unhas, faço. Se não quero, não faço. "Mulher tem que sempre andar impecável e de unha feita". Ok, então me classifique como homem - eu não ligo, mas faço as unhas quando der e quiser. Depilo a perna porque gosto, mas se não der, danem-se os outros. "Olha, vão falar". Que falem. Ninguém limpa a minha casa ou me ajuda com minhas coisas para saber como eu manejo meu tempo. 

Se quero andar pelada em casa, ando. Se quero andar de calcinha, sem blusa ou sem shorts, ando. Na rua não saio porque não me sinto bem. Aqui eu perco os argumentos pras feministas porque homem pode sair sem camisa de casa e ninguém falar nada, mas mulher não pode sair sem calça ou blusa. Ok, minha opção pessoal é de sempre estar vestida quando vou trombar com outras pessoas. Da mesma forma que acho "anti-ético" (mais uma vez lembrando = minha opinião) homem andar sem camisa pelas ruas, acho o mesmo de mulheres. Praias são exceções.

"Homem não sofre com preconceito". Não? Experimenta ser homem e homossexual pra você ver. Não são só os homens que vão falar. São as mulheres também. Se é cheiroso demais, é porque é cheiroso demais. Se é afeminado demais, é porque é mais mulher que muita mulher. Se depila a perna, então.... "NOOOOOOOSSAAA, que absurdo, é gay!". E se vier com "mas gay não é homem", já é outro preconceito, então, reflita sobre os seus conceitos.

Sei que por pensar assim eu já fui apedrejada por uma feminazi, que me enquadrou automaticamente como uma "mulher machista". Uma pessoa que nunca conviveu comigo, não sabe nada sobre mim, minha vida, minha infância, minha felicidade de ser mulher e não se sentir inferiorizada no mundo porque um pedreiro assobia quando passo do lado de uma obra ou porque me chamam de puta quando digo que transei e não sou casada ainda vem me classificar como machista porque eu não levanto bandeira de movimento feminista. Ok. Ignorei e continuei a ser feliz.

Sei simplesmente que não me senti - nunca - inferiorizada como mulher na sociedade. E ainda não me sinto. Obviamente eu vou trombar com muitos empecilhos pelo mundo, porque tenho menos de 30 anos, mas até hoje eu nunca me comparei a um homem a ponto de achar que ele tinha mais valor que eu para o mundo. Talvez eu seja simplesmente assim e não ligue pra essas coisas pequenas que vão ficar na terra quando minha energia vital acabar. Eu sei quem eu sou, eu sei do que sou capaz e sei que não vou me sentir tão insignificante quando trombar direto com o tal do preconceito. Mas essa sou eu. E eu enxergo o mundo ao meu redor assim. 

Sei que a realidade no mundo todo não é como a minha - antes que me apedrejem e me chamem de filhinha de papai de classe média. Mas, como eu disse, essa é a minha experiência de vida até hoje, e achei interessante compartilhar pra mostrar que nossa sociedade brasileira não é tão arcaica e ridícula quanto tem sido descrita continuamente. Existem muitos conceitos machistas em tudo o que fazemos, mas eu não me deixo afetar por uma coisa tão pequena. É a minha forma de não gerar diferenças entre os sexos.