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A Moça do Café

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Edward Hopper - Automat O sol já estava baixo a oeste, e a silhueta de uma jovem senhora ainda ocupava o mesmo lugar em uma cafeteria. Estava ali havia horas, e permanecia com a mesma expressão no rosto. As lágrimas tinham deixado um caminho brilhoso em sua pele e seus olhos estavam tão inchados e tristonhos que haviam deformado parcialmente a feição da mulher. Não bebia e nem comia nada. Apenas esquecera o olhar fixo na mesa e se perdera dentro de pensamentos. Muitos já haviam comentado sobre o que se passara com aquela infeliz. Eu olhava constantemente para aquela moça e me perguntava se realmente seria verdade o que diziam sobre ela. Ela, aparentemente, era quieta, fechada, mas doce. Conseguia misturar a tristeza e a alegria com um só gesto. Talvez essa dúvida e curiosidade tenham me deixado ali, sentado do outro lado da cafeteria, observando os poucos movimentos por ela feitos. Com o passar do dia, descobri que seu nome era Marta. Aliás, bastou-me as duas horas críticas daq...

A Dança

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Se um dia me perguntarem o que mais me faz falta nessa vida de estudante, eu insistentemente responderei: A dança. Dentre tudo o que tive que abrir mão, dentre as distâncias que tive que suportar, a mais doída, a que não teve volta, foi a dança. Quando eu encontrei como relaxar as angústias, como esquecer o mundo, ouvir meu corpo, sentir a música... Quando descobri que meus limites de movimento não eram os verdadeiros, quando comecei a explorar tudo o que poderia fazer e não sabia, eu disse adeus... Nunca fui muito fã de esportes, nunca fiz ballet. Queria fazer jazz ou sapateado, mas nunca cheguei perto de aprender os movimentos. Quando descobri a dança do ventre, me encontrei. Talvez porque aprendi a dança com seu verdadeiro propósito: Homenagear uma deusa, despertar a deusa que há em você, e não usar o corpo para seduzir por simplesmente conseguir deslocar mais os quadris do que numa outra dança qualquer. Hoje não posso voltar a dançar. Não há lugares (decentes) aqui onde estou. Não ...

A Lua...

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Era fim de tarde, durante aquela hora crepuscular em que o sol agoniza, luta e desafia a escuridão, mas não consegue vencer a força da noite. O azul do céu era denso, forte, mas ainda alaranjado com os gritos de sol. Na imensidão de cores, no mar azul-negro do céu, nuvens claras e sombreadas tomavam espaço, ganhavam formas curtas e esparsas, tilintando o véu com pontos claros no fim da tarde. O sol brilhava naquela água suspensa, destacava aquele acúmulo de gotículas, como uma pintura ilusionista, realçando o relevo, mas mascarando os limites. Não era o anoitecer mais belo. Era triste. As cores eram tristes. Os arranjos eram tristes. Os tons alternavam de azul para cinza e depois para ocre, numa constância nauseante e imutável. Mas ali, logo ali no horizonte, por trás de um filete grafite de nuvens, iluminava o céu a lua esplêndida. Diante de toda aquela natureza morta que tomava o céu da tarde, destacava-se ao longe, grande e majestosa, a lua. Era a luz. Era uma bola no ...

Novos ares

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Dizem que amigos não se perde. Não é verdade. Eu sei que não é. As coisas não estavam b em. Eu podia sentir o ar pesado, massacrando meu corpo quando estava perto dela. Era como se uma força emanasse dela, em direção a mim, me impelindo para longe, bem distante. Eu já notara havia dia s, e queria saber o que acontecer a. N ão sou do tipo de homem que guarda para si todas as angústias e medos. Sempre fui aberto e consegui expor a todos o que sentia, e dizer a todos tudo o q ue me chateava. Sempre pareceu mais fácil manter uma relação assim. Com ela era tão fácil ser sincero. Era uma amiga verdadeira, pelo menos para mim. Me ajudava, e compreendia. Mas agora, estava distante. A distância me incomodava. Sempre penso que se uma pessoa mantem um raio de distância a mim, é porque a culpa é minha. E eu tinha que descobrir o que estava havendo. Não dava mais para esperar. “Está tudo bem com você? Você anda tão distante. Eu te fiz alguma coisa, magoei você de alguma forma?” “Está tudo bem” ...

O ladrão de Chocolates

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Era um almoço solitário. Eu havia ido ao restaurante sozinha, e não há nada mais triste do que almoçar sozinha – a gente pensa em tudo e nada ao mesmo tempo, gasta tempo demais pensando em baboseiras enquanto enfia garfadas de comida guela abaixo, até limpar todo o prato que antes estava cheio de cores. Comi. Bebi meu suco. Paguei minha conta, e como sobremesa, me dei um bombom “Alpino”, daqueles bem pequenos, mas gordinhos e macios, com o sabor único que o chocolate pode ter. Estava prestes a deixar o restaurante, com meu bombom em mãos, quando avisto um grupo de amigos almoçando em um outro canto do local. Fui convidada a me juntar a eles, e me juntei. Alguns já haviam acabado de comer, outros estavam nos momentos finais... Conversa vai, conversa vem, o papo deu uma trégua e eu me lembrei do bombom que ainda segurava. Feliz, descasquei aquela embalagem dourada com cuidado, como se de dentro dela fosse sair um bombom de ouro. Retirei o papel, e com todo cuidado de quem deseja degustar...

Que paciência, que nada!

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Alguém já percebeu que toda vez que estamos estressados, prestes a matar um que atravesse aquela linha invisível que construímos quando estamos com raiva, pensamos em deus e pedimos paciência? Pois bem. Eu descobri que pedir paciência não é a melhor solução. Aliás, descobri que quanto menos a gente pede, melhor, porque a gente nunca gosta do que recebe em troca. Se pedimos paciência, ele manda um daqueles problemas (ou pessoas mesmo) bem encardidos pra testar você ao máximo – óbvio! Deus nunca dá nada de mão beijada, então ele não iria iluminar você, colocar aquela musiquinha “oohhhh” de fundo e falar “Pronto, meu filho, eu te concedo o dom da paciência”. E BUM! Você se torna paciente. Então, o que ele faz? Ele manda um problemão que, se você conseguir solucionar, vai ser porque teve paciência. Lindo, não é? Você já estava soltando fogo pela boca de nervoso, e chega mais um problema pra atazanar. Mas fazer o quê? Foi você que pediu... É como pedir força. A gente pede força e espera por...

Gripe etílica, neurose suína

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Alguém já parou para pensar como esse novo vírus, que nem é tudo aquilo que todos esperavam que fosse, foi capaz de incorporar as normas básicas de higiene na população? Essa onde de globalização da doença está transformando a população em um bando de loucos por esterilização: A mídia manipula as informações que divulga, e o povo simplesmente se apavora. Essa onda de limpeza, pra mim, começou quando aquele infeliz difamador da classe dos biomédicos – o tal do “Dr. Bactéria” – começou a divulgar no fantástico que nem tudo é tão “limpinho” quanto parece. Começou a dizer que não pode lavar alface e guardá-la lavada, que tábua de carne e “mexedores” de madeira são um mundo de fungos e bactérias... E o povo começou a se desesperar, com medo da ameaça invisível e microscópica dos “germes”. O problema é que ninguém nunca parou para pensar em como isso SEMPRE esteve presente em nosso mundo e raramente nos afetou. Tudo bem, uma infecçãozinha gástrica ou uma virose de vez em quando são comuns, a...